ANÁLISE DO PERFIL PROTEÔMICO DA ÚLCERA MALEOLAR EM PACIENTES COM ANEMIA FALCIFORME
Doença Falciforme; Feridas Cutâneas; Proteoma; Moduladores Genéticos.
A úlcera maleolar (UM) é uma das complicações mais frequentes e debilitantes da anemia falciforme (AF). Embora sua etiologia seja considerada multifatorial, os mecanismos moleculares envolvidos na ocorrência e cronicidade dessas lesões ainda não estão completamente esclarecidos. Nesse contexto, este estudo teve como
objetivo avaliar o perfil proteômico plasmático de indivíduos com AF, a fim de identificar proteínas e processos biológicos associados ao desenvolvimento e à cicatrização das UMs. Após a análise de prontuários, foram selecionados 60 pacientes adultos com AF acompanhados no HEMOPE, com mediana de idade de 38 anos (19–
60 anos), sendo 50% do sexo feminino. Os participantes foram distribuídos em três grupos (n = 20/grupo): UM aberta (UMA), UM fechada (UMF) e sem histórico de UM (Controle). Para as análises moleculares, foram preparados pools de plasma por grupo clínico. A depleção de albumina e a remoção de IgG foram realizadas por Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (CLAE), seguidas de digestão enzimática das proteínas. Os peptídeos foram analisados por CLAE acoplada à espectrometria de massas (LC-MS/MS), e os dados proteômicos foram processados pelos pacotes OmicScope (v.1.4.2) e ProteoSpectra. Quando comparados ao grupo Controle, UMA e UMF apresentaram 13 e 49 proteínas diferencialmente abundantes (PDAs), respectivamente. Destas, 11 PDAs foram compartilhadas entre os grupos com UM. Observou-se aumento de proteínas associadas ao metabolismo lipídico, transporte de colesterol e remodelamento de lipoproteínas, processos envolvidos na inflamação crônica e no estresse oxidativo. Concomitantemente, verificou-se redução de proteínas relacionadas à agregação plaquetária, ativação do plasminogênio e
fibrinólise, sugerindo a participação desses processos no desenvolvimento e manutenção das lesões. A comparação entre os grupos UMA e UMF revelou apenas duas PDAs, ambas mais abundantes no grupo UMA. Essas proteínas estavam associadas à ativação da via lectina do sistema complemento, opsonização,
fagocitose, resposta inflamatória aguda e proteólise, indicando a manutenção da ativação da imunidade inata durante a fase ativa da lesão. Apesar do fechamento clínico da lesão, o perfil proteômico do grupo UMF mostrou-se mais semelhante ao observado no grupo UMA do que ao grupo Controle. A maior similaridade entre os grupos UMA e UMF, aliada ao maior número de PDAs identificado no grupo UMF, sugere que alterações moleculares sistêmicas persistem após a cicatrização da úlcera e que o fechamento da lesão pode não representar o completo restabelecimento da homeostase biológica. Como perspectivas, as PDAs mais promissoras serão validadas em amostras individuais por ELISA, visando confirmar a relevância biológica
das alterações identificadas e aprofundar a compreensão dos mecanismos moleculares envolvidos nessa complicação da AF.