CONECTA RECIFE: UMA CONEXÃO PERDIDA? Análise crítica das implicações do avanço das tecnologias nas políticas sociais.
Serviço Social; Assistência Social; SUAS; Digitalização do Acesso; Conecta Recife; Exclusão Digital; Gestão Digital da Pobreza; Trabalho Profissional.
Esta dissertação analisa os impactos e as contradições da digitalização do acesso aos serviços socioassistenciais no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), tomando como campo empírico de investigação a experiência do município do Recife e sua plataforma digital Conecta Recife. O estudo parte da hipótese de que a incorporação acelerada das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) na gestão pública, frequentemente respaldada pelos discursos da eficiência gerencial, da modernização administrativa e do paradigma da Smart City (Cidade Inteligente), pode operar como um mecanismo de seletividade e filtragem invisível, restringindo o acesso da população vulnerabilizada aos direitos socioassistenciais. Fundamentada na perspectiva teórico-metodológica do materialismo histórico-dialético, a pesquisa articula o debate crítico do Serviço Social sobre a trajetória da Assistência Social no Brasil às discussões contemporâneas sobre o "capitalismo de vigilância", a "automatização da desigualdade" e a "gestão digital da pobreza". Analisa-se como o processo de transição do atendimento presencial e territorializado nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) para interfaces mediadas por aplicativos e sistemas informatizados, intensificado no cenário pós-pandêmico da COVID-19, desconsidera as profundas assimetrias socioespaciais e a exclusão digital que marcam as periferias e morros recifenses. O trabalho examina, ainda, o reordenamento do trabalho profissional do/a assistente social diante do avanço da burocratização algorítmica. Constata-se que a conversão dos/as profissionais de trabalhadores/as da linha de frente em "operadores de inconsistências do sistema" sobrecarrega as equipes, precariza as condições de trabalho e altera a natureza da escuta qualificada. Por fim, a pesquisa conclui que a digitalização do acesso, quando dissociada de políticas efetivas de inclusão digital e de investimentos na infraestrutura pública presencial, desconfigura a dimensão universal e protetiva do SUAS, aprofundando a focalização, a criminalização e a gestão burocrática da questão social