Efeito sinérgico do Time-Restricted Feeding na fase clara e da dieta ocidentalizada sobre alterações hepáticas, metabólicas e parâmetros cronobiológicos em ratas Wistar jovens
Obesidade; esteatose hepática; atividade locomotora; dieta ocidentalizada; crononutrição.
Introdução: Os ritmos circadianos, controlados por genes relógio e coordenados pelo núcleo supraquiasmático, regulam funções fisiológicas conforme o ciclo claro/escuro. A ruptura desses ritmos pode ser induzida pela composição da dieta e pelos horários de alimentação, levando à cronodisrupção, a qual tem sido associada à obesidade, à doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) e a alterações no comportamento de padrões locomotores. Objetivo: Avaliar os efeitos da restrição alimentar durante a fase clara concomitante à ingestão de dieta ocidentalizada sobre a MASLD e a atividade locomotora em ratas Wistar jovens. Metodologia: A amostra foi composta por 24 ratas Wistar fêmeas, distribuídas em três grupos: controle (C), obeso ad libitum (OA) e obeso restrito (OR). A obesidade foi induzida nos grupos OA e OR após oito semanas de consumo de dieta ocidentalizada. Em seguida, o protocolo de time-restricted feeding (TRF) foi aplicado por quatro semanas no grupo OR, com janela alimentar de 12 horas durante o período claro e jejum de 12 horas no período escuro, aplicando-se o registro da atividade locomotora. Após o TRF, realizaram-se análises cronobiológicas (glicemia e ingestão alimentar), seguidas de eutanásia e coleta de sangue e tecidos para análises post-mortem. O nível de significância adotado foi p<0,05. Resultados: A ingestão crônica de dieta ocidentalizada induziu o fenótipo obeso no grupo OA, caracterizado pelo aumento significativo no peso corporal final (+22%) e na deposição absoluta e relativa de gordura perigonadal e retroperitoneal, além de maiores valores no Coeficiente de Eficácia Alimentar (CEA) e no ganho de peso por consumo calórico (CGPCC), concomitante a uma redução na ingestão alimentar acumulada. No perfil plasmático, o grupo OA exibiu elevação do colesterol total e do HDL-c. O grupo OA estabeleceu um quadro avançado de MASLD, com acúmulo de gotículas lipídicas intracelulares (graus 1 a 3), aumento na área corada por Oil Red O (O.R.O.) para 36,80% e hiperexpressão acentuada do gene lipogênico SREBP1c. Houve progressão para fibrose hepática no grupo OA, demonstrada pelo aumento de 105,3% na deposição de colágeno por SHG e pela superexpressão dos genes Col1a1 e Col4a1, com tendência marginal ao aumento inflamatório de TNFα e IL-7. Em contrapartida, o grupo OR submetido ao TRF na fase clara promoveu redução no ganho de peso absoluto (-14%), na adiposidade visceral absoluta e relativa, no CEA e no CGPCC, além de menor comprimento naso-anal e circunferência torácica. Contudo, o grupo OR desencadeou uma intensa hiperfagia compensatória restrita ao início da fase clara (ZT 04), culminando em hiperglicemia plasmática ao final do estudo e episódios de hipoglicemia capilar nos períodos de jejum na fase escura (ZT 16 e ZT 20). No parênquima hepático, o grupo OR elevou o peso relativo do fígado e apresentou redução no número absoluto e na proporção de hepatócitos por campo, com aumento na área de lipídios neutros por O.R.O. para 44,69%. O TRF na fase clara reduziu significativamente a expressão gênica de Col1a1 e Col4a1 em relação ao grupo OA. Cronobiologicamente, a análise de Cosinor da atividade locomotora do grupo OR revelou reduções estatisticamente significativas na amplitude e no percentual de variação rítmica (%V), consolidando a perda de robustez do ritmo circadiano sob comportamento cronodisruptivo. Conclusão: A ingestão da dieta ocidentalizada induziu o fenótipo obeso e progressão da MASLD para fibrose hepática em fêmeas jovens. Embora o protocolo de TRF na fase clara tenha atenuado o ganho de peso e a adiposidade visceral, atuou como agente cronodisruptivo. Essa dessincronização manifestou-se como hiperfagia compensatória, distúrbios glicêmicos e agravamento da esteatose hepática. Esses achados destacam que a preservação da saúde fisiometabólica e hepática em ratas adultas jovens depende da relação entre qualidade dietética e o alinhamento temporal da ingestão alimentar à fase biológica ativa.