CUIDADOS INTEGRADOS PARA PESSOAS IDOSAS EM RECIFE (ICOPE): CENÁRIO APÓS A FALHA NA TRIAGEM AUDITIVA
audição; envelhecimento; Perda auditiva; Organização Mundial de Saúde;
O envelhecimento populacional, no Brasil e no mundo, impõe desafios importantes aos sistemas de saúde, especialmente para preservar a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida das pessoas idosas. No Brasil, o aumento da longevidade, associado à maior frequência de doenças crônicas e declínios funcionais, exige que a Atenção Primária à Saúde reorganize suas estratégias para oferecer cuidado integral, contínuo e centrado na pessoa. Nesse cenário, a continuidade do cuidado é fundamental para garantir acompanhamento adequado, prevenir complicações e promover saúde. Alinhado a essa perspectiva, o modelo ICOPE (IntegratedCare for Older People) da Organização Mundial da Saúde orienta que a atenção à saúde auditiva seja estruturada de forma integrada, com foco na funcionalidade e articulada entre os diferentes níveis assistenciais.Objetivo: analisar a continuidade do cuidado à pessoa idosa, após a falha na triagem auditiva proposta pela estratégia ICOPE. Método: Estudo analítico, observacional e transversal conduzido com 70 idosos (≥60 anos) . A coleta de dados ocorreu em três momentos: (I) triagem auditiva pelo protocolo ICOPE, utilizando o teste do sussurro; (II) avaliação audiológica completa (audiometria tonal, vocal e imitanciometria) e encaminhamentos clínicos necessários; (III) aplicação de questionário estruturado para análise do fluxo do cuidado e as intervenções recebidas. Dados secundários do SIA/SUS foram utilizados para caracterizar a oferta de serviços audiológicos no município do Recife. Resultados: A triagem auditiva revelou 68,5% de ocorrência de suspeitas de perda auditiva (falha no teste do sussurro), e desses casos, 61,31% foram confirmados como perda auditiva pela avaliação audiológica. De 53 pessoas encaminhadas para continuidade do cuidado na rede, apenas 11 iniciaram o processo de intervenção. Entre os idosos que buscaram atendimento, persistiram obstáculos no agendamento e nenhum acesso efetivo às tecnologias assistivas no período analisado. Esse cenário caracteriza uma baixa continuidade do cuidado, provocada por desinteresse na intervenção, dificuldades individuais, barreiras de acesso e fragilidades na articulação da rede. O desinteresse na busca pela intervenção ocorreu majoritariamente em pessoas identificadas com perda auditiva sensórioneural de grau leve, perfil predominante na amostra (65,45%). Entre as barreiras no acesso à rede, encontrou-se dificuldades por parte da pessoa idosa como locomoção, falta de auxiliar para acompanhamento e problemas de saúde. E por parte dos serviços, dificuldades de comunicação para agendamentos e filas extensas. O mapeamento dos serviços municipais evidenciou pouca oferta de serviços de avaliação e intervenção auditiva em instituições de média complexidade da rede pública. Apenas 14 instituições oferecem avaliação audiológica, e 2 oferecem dispensa de aparelho de amplificação sonora individual (AASI). Conclusão: Conclui-se que a continuidade do cuidado apresenta limitações estruturais que comprometem a efetividade da linha de cuidado em saúde auditiva, com rupturas entre a atenção básica (triagem) e a média complexidade (diagnóstico e intervenção). A baixa adesão ao encaminhamento, somada a barreiras individuais e estruturais e à oferta restrita de serviços e tecnologias assistivas, compromete a efetividade do modelo ICOPE. Fortalecer a rede SUS e qualificar o acesso é essencial para garantir melhores desfechos para a população idosa.