ESTUDO DAS ASSEMBLEIAS DE FORAMINÍFEROS DO CRETÁCEO SUPERIOR (CAMPANIANO–MAASTRICHTIANO) DAS BACIAS PARAÍBA E POTIGUAR, NORDESTE DO BRASIL E SUA RELAÇÃO COM A FOSFOGÊNESE TETIANA
Foraminíferos; Bioestratigrafia; Campaniano–Maastrichtiano. Paleoecologia; Fosfogênese.
Os depósitos fosfáticos do Cretáceo Superior constituem importantes registros sedimentares associados a episódios globais de fosfogênese desenvolvidos ao longo das margens continentais do domínio tetiano. No Nordeste do Brasil, as bacias sedimentadas Paraíba e Potiguar preservam alguns dos principais registros desse processo na margem Equatorial do Atlântico. Nas áreas investigadas, os intervalos estudados correspondem principalmente às formações Itamaracá e Gramame, na Bacia Paraíba, e às formações Jandaíra e Guamaré, na Bacia Potiguar, constituídas predominantemente por calcários, margas e níveis fosfáticos. Este estudo investigou as assembleias de foraminíferos planctônicos e bentônicos associadas a esses intervalos com o objetivo de de determinar a idade dos depósitos, caracterizar os paleoambientes deposicionais e compreender os processos paleoceanográficos relacionados à fosfogênese na margem equatorial brasileira. A análise taxonômica permitiu a descrição de uma nova espécie de foraminífero planctônico, Globotruncanita tinocoi sp. nov., e de uma nova espécie de foraminífero bentônico, Nonion cameridentatus sp. nov., ambas registradas na Bacia Paraíba. A análise bioestratigráfica permitiu reconhecer as zonas de foraminíferos planctônicos Globotruncana aegyptiaca–Gansserina gansseri, Gansserina gansseri e Pseudoguembelina palpebra–Contusotruncana contusa, abrangendo o intervalo do Campaniano superior ao Maastrichtiano inferior. O limite Campaniano/Maastrichtiano foi identificado na Bacia Paraíba entre as formações Itamaracá e Gramame, no intervalo correspondente à zona P. palpebra–C. contusa. Além disso, foi reconhecido um intervalo caracterizado pela coocorrência abundante dos foraminíferos bentônicos Quinqueloculina spp. e Gavelinella spp., interpretado como uma possível ecozona bentônica. Os intervalos fosfáticos foram depositados predominantemente durante o Campaniano superior, posicionando-se nas zonas Globotruncana aegyptiaca–Gansserina gansseri e Gansserina gansseri, com extensão local até a base da zona Pseudoguembelina palpebra–Contusotruncana contusa. A análise petrográfica revelou microfácies carbonáticas dominadas por packstone a grainstone fosfático, com ocorrências subordinadas de wackestone–packstone, contendo grãos fosfáticos, intraclastos, bioclastos e microfósseis parcialmente fosfatizados, associados a matriz micrítica e cimento calcítico, indicando retrabalhamento em ambientes marinhos relativamente rasos e de energia moderada. A análise paleoambiental baseada em morfogrupos e índices ecológicos indica que, durante o Campaniano superior, as sucessões foram depositadas em ambientes variando de zonas neríticas a batiais superiores e médios. Os níveis fosfáticos formaram-se predominantemente em ambiente nerítico interno, evidenciado pela abundância de gêneros bentônicos como Siphogenerinoides, Orthokarstenia, Epistomina, Gaudryina, Quinqueloculina, Gavelinella e Lenticulina na Bacia da Paraíba, e Quinqueloculina, Afrobolivina, Gavelinella e Lenticulina na Bacia Potiguar, indicando condições de oxigenação variável e elevada disponibilidade de nutrientes. No limite Campaniano–Maastrichtiano, os morfogrupos planctônicos indicam condições mesotróficas influenciadas por ressurgência, com predominância de formas bisseriais e trocoespirais não carenadas. No Maastrichtiano inferior, observa-se um ambiente marinho dinâmico, com variações na produtividade, estratificação da coluna d’água e nível relativo do mar. Nesse contexto, a formação dos depósitos fosfáticos está associada a elevada produtividade biológica, intenso fluxo de matéria orgânica e condições disóxicas no sedimento. A ocorrência de Globotruncanita tinocoi sp. nov. em diferentes bacias sedimentares, associada a níveis fosfáticos, sustenta a existência de conexões paleoceanográficas entre o Atlântico Equatorial e os dominio tetiano, onde episódios recorrentes de fosfogênese promoveram gradientes ambientais semelhantes durante o Cretáceo Superior. Esses depósitos podem ser correlacionados às sequências estratigráficas KCa7, KMa2 e KMa1, amplamente registradas em regiões como Marrocos, Egito, Tunísia, Jordânia, Iraque, Israel, Síria, Colômbia, Atlântico Norte subtropical e Brasil.