PERFIL EPIDEMIOLÓGICO E MODELAGEM TEMPORAL E ESPACIAL DA CARGA DA HANSENÍASE NO BRASIL: UM
ESTUDO ECOLÓGICO DE 21 ANOS
Carga da hanseníase, Análise espacial, Mortalidade, Anos de Vida Ajustados por Incapacidade, Coeficiente de detecção
Introdução: A hanseníase é uma doença infecciosa crônica que persiste como um grave
problema de saúde pública no Brasil, especialmente nas regiões mais vulneráveis. Apesar da
redução no número de casos em algumas áreas, a doença mantém padrões de distribuição
espacial heterogêneos, associados a fatores socioeconômicos e à pobreza. A análise dos padrões
temporais e espaciais é essencial para compreender a dinâmica da hanseníase no país e
subsidiar ações mais eficazes de controle. Objetivo: Analisar o perfil sociodemográfico, clínico
e epidemiológico da população acometida pela hanseníase, juntamente com a avaliação
temporal, espacial e espaço-temporal da doença e de sua carga nos municípios brasileiros nos
últimos 21 anos (2001 a 2021). Materiais e métodos: Realizou-se um estudo ecológico e de
base populacional utilizando dados de hanseníase dos 5.570 municípios brasileiros. Foram
realizadas s análises temporais com o modelo de regressão segmentada Joinpoint para
identificar tendências ao longo do tempo. As análises espaciais foram realizadas utilizando o
Estimador Bayesiano Empírico Local para minimizar a instabilidade causada pela flutuação
aleatória de casos e pelo Índice de Moran Global e Local para avaliar a autocorrelação espacial.
A análise espaço-temporal foi feita através da estatística de varredura para identificação de
clusters de risco. Além disso, foi estimada a carga de doença pelos Anos de Vida Ajustados por
Incapacidade (DALYs), combinando anos de vida perdidos (YLL) e anos vividos com
incapacidade (YLD). Resultados: O coeficiente médio de detecção de hanseníase no Brasil foi de 19,36 casos
por 100.000 habitantes, com maior ocorrência entre os homens (21,29/100.000 hab.) e na
faixa etária de 60 a 69 anos (36,31/100.000 hab.). Observou-se uma tendência temporal
decrescente do coeficiente de detecção no país (APC: -5,20% ao ano), embora tenha
havido aumento proporcional dos casos multibacilares (MB), especialmente nas regiões
Norte e Centro-Oeste. A hanseníase apresentou ampla distribuição espacial em todo o
Brasil, com formação de aglomerados espaço-temporais de alto risco, principalmente nas
regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste. Em relação a carga, houve um agrupamento
concentrado e substancial de municípios de alto risco, nas mesmas regiões, indicando
distribuição espacial da doença não é aleatória. Embora a carga geral da hanseníase tenha
diminuído ao longo das duas últimas décadas, essas regiões mantiveram valores elevados
em comparação às regiões Sul e Sudeste. A carga da doença impactou principalmente
homens e indivíduos de faixas etárias mais velhas. Além disso, o principal componente do
DALY da hanseníase foi o YLL, indicando um impacto significativo da mortalidade
associada à doença. Conclusão: Apesar da tendência geral de redução, o Brasil ainda é
considerado altamente endêmico para hanseníase, com aumento proporcional de casos multibacilares e padrões regionais preocupantes. A carga da doença permanece expressiva, sobretudo nas regiões mais pobres, reforçando a necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e adotar medidas que aumentem a eficiência dos serviços de saúde e a integração dos níveis de assistência. As intervenções devem ser adaptadas às especificidades locais para assegurar maior efetividade no controle da doença e na redução de suas consequências sociais e sanitárias.