ESTUDO METABONÔMICO NA FUNÇÃO RETARDADA DO ENXERTO RENAL
Metabolômica; Função Retardada do Enxerto; Transplante de Rim.
A função retardada do enxerto (FRE) tem alta incidência e associa-se a pior prognóstico após o transplante renal. Sua ocorrência é multifatorial, envolvendo características do doador e do receptor, etapas de captação e preservação do órgão e o tempo de isquemia fria (TIF). Com o avanço das ciências ômicas, tornou-se possível compreender melhor os processos biológicos em nível celular. A metabonômica avalia variações do perfil de metabólitos em estados fisiológicos e patológicos. O objetivo deste estudo foi comparar o perfil metabonômico sérico de receptores de transplante renal com doador falecido que evoluíram com FRE e aqueles com função imediata do enxerto(FIE). Trata-se de uma coorte prospectiva, unicêntrica, realizada de maio 2023 a dezembro de 2024. Foram coletadas duas amostras de soro por paciente: uma antes do transplante e outra no pós-operatório. Os pacientes foram acompanhados até a alta hospitalar e divididos FRE e FIE. A análise metabonômica foi realizado por espectroscopia de ressonância magnética nuclear de hidrogênio (¹H-RMN). A amostra analisada foi composta por 58 pacientes (63% do sexo masculino), idade média de 46 anos, sendo 22 no grupo FIE e 36 no grupo FRE. No grupo com FRE, observou-se maior índice de massa corpórea, maior creatinina final do doador e maior proporção de pacientes que realizaram diálise no dia do transplante antes do procedimento cirúrgico. Não houve diferenças quanto a solução de preservação nem quanto ao TIF. O estudo metabonômico não mostrou diferenças no soro pré-transplante; entretanto, no soro coletado em média 4 horas pós cirurgia, identificou-se um perfil de seis metabólitos discriminantes, incluindo: trimetilamina N-óxido (TMAO), ácido cólico, β-hidroxibutirato, lipídios(lipoproteínas) e corpos cetônicos atribuídos à acetona e/ou ao acetoacetato, além de um sinal não identificado. A via metabólica mais associada à FRE foi a do butanoato, relacionada ao metabolismo energético mitocondrial e à resposta celular ao estresse, processos centrais na lesão de isquemia-reperfusão. A presença de corpos cetônicos e β-hidroxibutirato sugere alterações na adaptação metabólica do enxerto em restaurar a homeostase energética pós-transplante. Adicionalmente, a identificação de metabólitos relacionados ao eixo microbiota-metabolismo (TMAO), β-hidroxibutirato, ácido cólico e a via do butanoato) aponta para a possível participação do eixo intestino-fígado-rim na fisiopatologia da FRE.