A EXPERIÊNCIA DOS (AS) INFLUENCIADORES(AS) SURDOS(AS) NA ERA DIGITAL: (DES)CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS E FIGURAÇÕES SOCIAIS.
Identidade surda; etnografia digital; rede social; figuração social; interdependência.
A constituição da pessoa surda foi historicamente marcada por práticas de exclusão e disputas em torno dos modos considerados legítimos de comunicação. Nos séculos XIX e XX, abordagens oralistas e concepções clínico-terapêuticas restringiram o reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais (Libras), subordinando os sujeitos surdos aos padrões da cultura ouvinte. Em resposta, a comunidade surda desenvolveu estratégias de resistência que fortaleceram vínculos linguísticos, culturais e identitários, consolidando a surdez como uma experiência sociocultural específica. Na contemporaneidade, a expansão das plataformas digitais amplia a difusão da Libras, fortalece redes de sociabilidade e cria novos espaços de visibilidade, pertencimento e participação. Contudo, esses ambientes permanecem atravessados por barreiras de acessibilidade, lógicas algorítmicas e assimetrias de poder que condicionam a circulação de conteúdos e influenciam os processos de construção da identidade e da subjetividade surdas. Diante desse cenário, esta tese buscou responder à seguinte questão de pesquisa: de que maneira as interações mediadas pelas redes virtuais influenciam a construção da identidade e da subjetividade surdas? Para responder a essa indagação, teve como objetivo analisar como as tecnologias digitais reconfiguram essas vivências, investigando seus efeitos sobre o fortalecimento do pertencimento e a constituição do sujeito surdo. A pesquisa fundamenta-se em uma abordagem qualitativa (Minayo, 2001) e adota a etnografia digital como perspectiva teórico-metodológica (Hine, 2000, 2015; Pink et al., 2016). O campo empírico constituiu-se do acompanhamento não participante de publicações no Instagram, veiculadas entre outubro e dezembro de 2025, plataforma selecionada por concentrar a produção e a circulação de conteúdos dos participantes. O estudo envolveu dez influenciadores surdos, escolhidos intencionalmente pela assiduidade de postagens, engajamento e disponibilidade de participação. Os dados foram produzidos por meio de observação etnográfica sistemática, registrada em diário de campo, análise fotográfica e aplicação de questionário online acessível. A interpretação articulou os preceitos da etnografia digital às categorias analíticas emergentes e à Sociologia Figuracional de Norbert Elias (1993, 1994), sob as noções de figuração e interdependência. Os resultados evidenciam que a construção da identidade surda na era digital configura um processo histórico, relacional e continuamente negociado. As análises demonstram que a Libras, a centralidade da visualidade e as práticas comunicacionais dos influenciadores ampliam os espaços de legitimação e o fortalecimento de laços comunitários. Ao mesmo tempo, revelam que tais experiências permanecem tensionadas por disputas de visibilidade, barreiras de acessibilidade e mecanismos algorítmicos que distribuem desigualmente as oportunidades de participação. Conclui-se que as plataformas digitais reconfiguram as figurações sociais da comunidade surda ao expandir as redes de interdependência e propiciar canais de expressão e interação, sem, contudo, eliminar as assimetrias de poder e os processos de normalização que historicamente atravessam a experiência surda.