WELCOME HOME DE GUI MOHALLEM E CRISÁLIDAS MADALENA SCHWARTZ : ARTICULAÇÃO ENTRE ARTE, POLÍTICA E VISIBILIDADE EM NARRATIVAS VISUAIS
Fotografia; narrativa visual; política
A circulação de imagens fotográficas utilizando o suporte do livro produz uma experiência distinta daquela oferecida pela fotografia isolada, pela exposição ou pelo fluxo digital. Quando uma imagem é inserida em uma publicação, ela passa a ser lida em relação com outras imagens, com a página, com o intervalo, com a escala, com o projeto gráfico, com os textos e com o gesto corporal do leitor que folheia, interrompe, retorna e estabelece associações. O fotolivro, portanto, será compreendido nesta investigação como um dispositivo visual e editorial capaz de organizar modos de leitura, percepção e aproximação dos corpos fotografados.
Tal compreensão torna-se especialmente relevante quando a publicação de narrativas visuais fotográficas coloca em cena sujeitos historicamente marginalizados. Nesses casos, a organização editorial, além de produzir uma sequência estética, se insere e participa da disputa pelas formas de aparição desses corpos na dimensão estética e visual. A maneira como uma imagem é enquadrada, ordenada, aproximada de outras imagens, inscrita em uma página ou retomada em outro contexto histórico interfere na forma como os sujeitos fotografados podem ser vistos, nomeados, lembrados ou politizados.
Nesse sentido, a presente dissertação investiga os fotolivros Crisálidas (2012), de Madalena Schwartz, e Welcome Home (2012), de Gui Mohallem, a partir das relações entre imagem, estética, política, regimes de visibilidade e temporalidades não lineares. A escolha desses objetos parte de uma coincidência editorial significativa: ambos foram publicados em 2012, mas mobilizam imagens e experiências inscritas em contextos históricos, geográficos e culturais distintos.
Crisálidas reúne retratos realizados por Schwartz entre 1973 e 1976, ligados à cena artística e noturna paulistana, especialmente a sujeitos vinculados ao teatro underground, à performance e às dissidências de gênero e sexualidade (Schwartz, 2012; Feder, 2013; Escorel, 2023). Welcome Home, por sua vez, resulta da experiência de Mohallem em uma comunidade queer no Tennessee, nos Estados Unidos, entre 2009 e 2012, sendo posteriormente organizado como publicação fotográfica atravessada por imersão, convivência, corpo, paisagem e rito (Mohallem, 2012; Jesus, 2018; Ramos, 2017).