A Comadreria no Substack: um estudo netnográfico sobre relatos maternos, poéticas matricêntricas e comaternagem online
narrativas da maternagem; comunidades online; netnografia; Substack; estudos maternos.
O Substack é uma plataforma que une escrita e leitura de textos longos sobre diversos temas, com características de outras redes sociais, como textos curtos, vídeos e chats privados. A Comadreria é uma comunidade criada no Substack, que oferece um espaço de diálogo e colaboração entre mães. Esta pesquisa investiga como as mães utilizam o Substack para narrar experiências maternas, construir novos sentidos e interagir entre si em um ambiente digital de produção e circulação de vários textos hipermidiáticos. O objetivo geral é investigar como as mães utilizam o Substack para compartilhar experiências da maternagem e construir senso comunitário online. Para tanto, refletimos sobre a importância das mulheres-mães criarem espaços para falarem de si e reivindicarem a importância de suas narrativas, pessoais e coletivas, frequentemente silenciadas na contemporaneidade, em comparação com a predominância sociocultural das narrativas da maternidade patriarcal e normativa. Em seguida, contextualizamos o Substack enquanto plataforma de newsletters que incorpora características das redes sociais digitais para ampliar sua atratividade, mas mantém o compartilhamento de textos longos como diferencial. Nesse contexto, consideramos o Substack uma plataforma inserida na cultura da conexão (Jenkins; Green; Ford, 2014) e no fenômeno da plataformização (Poell; Nieborg; van Dijck, 2020). Também observamos que o Substack reúne características de momentos diferentes da história das mídias digitais (Kozinets, 2020). Recorremos aos estudos maternos de May Friedman (2013) e Andrea O’Reilly (2013) para compreender a Comadreria como um espaço de encontro permeado pelo senso de comunidade entre as mães. O corpus de pesquisa é formado por trinta e sete textos de acesso livre, escritos por mães da Comadreria e autoras das newsletters Tasqueando, Se parir, Literana, Ensaios da Ju e Ontem Escrevi, publicados de maio a novembro de 2025. A abordagem qualitativa e interpretativa guiou a análise dos textos, em diálogo com a Poética Feminista Matricêntrica de Olivia Heal (2019) e a Poética Materna do Enquanto de Marta Guimarães (2024). Mapeamos temáticas recorrentes no material pesquisado para entender como as escritoras contam suas histórias cotidianas, se expressam e refletem acerca das transformações envolvendo suas identidades e subjetividades maternas. Em seguida, realizamos entrevistas individuais com as mães autoras dessas newsletters para compreender suas motivações de escrita, percepções sobre a maternidade, estratégias de financiamento e formas de interação com as leitoras. Prosseguimos com a análise interpretativa dos
comentários das leitoras sobre os textos coletados. Nessa etapa, aplicamos a netnografia, método de pesquisa qualitativa on-line proposto por Robert Kozinets (2014, 2020) para estudar os significados socioculturais circulantes e as interações entre as pessoas na comunidade on-line.