SONHANDO O (IM)POSSÍVEL: a ficção dominante e seu mito sacrificial como gestão dos afetos de mulheres negras evangélicas em Maranguape II, Paulista.
Ficção dominante; mito sacrificial; mulheres negras evangélicas; gestão neoliberal do sofrimento; Recepção.
O mito sacrificial é um dos principais códigos da ficção dominante. Seu desenho crístico, guiado pela autopossessividade e pela interioridade de um herói que persevera no sofrimento para alcançar a boa vida, constitui um modo hegemônico de narração. Qual o seu papel na elaboração das experiências de sofrimento vividas por mulheres negras periféricas evangélicas na comunidade Nossa Prata (Maranguape II, Paulista)? A partir de histórias de vida obtidas em entrevistas em profundidade e relatos de cine-debate sobre histórias de superação, como Coleção Bíblia – José (1995), refletimos sobre como a linearidade teleológica/dialética do mito sacrificial opera como gestão neoliberal dos afetos (Safatle; Júnior; Dunker, 2023) e reproduz a dialética racial (Ferreira da Silva, 2019). Tomando a comunicação como esfera existencial-vinculativa da racionalidade neoliberal, na qual a empresa se torna um modo de subjetivação e o racial é um ponto cego de produção de excesso, buscamos compreender como essa ficção dominante fornece às participantes uma gramática de significação da vitória frente ao sofrimento, à precarização do trabalho e à inscrição na zona de não ser, afetabilidade (Fanon, 2008; Ferreira da Silva, 2022). Analisamos os processos de apropriação do mito, rastreando, em seus relatos, os poderes da ficção como arte de conduzir a conduta dessas mulheres (Foucault, 2008; Mombaça, 2016). Adota-se o que chamamos de abordagem de de/codificação composicional (Hall, 2003a; Ferreira da Silva, 2019; 2020) para investigar, em polifonia com as participantes, as posições de leitura na recepção: hegemônico-dominante, negociada e de oposição. Concluímos que o mito sacrificial opera uma narração masculina branca, um narrar com pai, mobilizando a culpa como ponto originário e forma de amor não transformativa, na qual a linearidade se estabelece como horizonte de expectativas aderente ao neoliberalismo. Tal dinâmica integra uma ecologia da mídia sacrificial, em que experiências comunicacionais em comunidade, louvores, confissões e o ato de assistir a filmes estimulam nas participantes a noção de autodeterminação e esperança vinculada ao medo, capturando parcialmente a imaginação política e a energia erótica como fonte de poder e autoconhecimento (Lorde, 2025; Ferreira da Silva, 2024).