Hagiografia de Uma Puta Virgem: A Figura de Salomé no Cinema
Salomé; figura; estética; Werner Schroeter; Oscar Wilde
Este trabalho pretende estudar a presença da figura de Salomé no cinema, inspirado na tragédia de Oscar Wilde, especificamente três filmes: a Salomé de Werner Schroeter (1971) e Alla Nazimova (1922), e Visage (2009) de Tsai Ming-liang. Buscamos analisar como o desejo frustrado em Salomé pode ser entendido como um fracasso queer, partindo de Halberstam (2011) e Love (2007), e como a presença da figura da cabeça decapitada do profeta, aliada à forma que a princesa fora representada, a transformam em um corpo impossível, a partir do conceito de Moraes (2002). Salomé se apresenta, nessas versões, como uma figura desestabilizadora e quase mutante, entre o masculino e o feminino, o profano e o sagrado, encarnando tanto o sexo quanto a morte. No corpo da princesa se refletem as mulheres do cinema e teatro, de Sarah Bernhardt a Loie Fuller, conjurando uma teia de referências de atrizes e artistas femininas. No cinema, Salomé se torna a imagem da transgressão, do fetiche e o queer, um corpo estranho e incerto para além de binarismos, que vai se remodelando da vamp do cinema mudo até as figuras etéreas do cinema moderno e contemporâneo, que reimaginam a femme fatale como uma presença que rompe as fronteiras entre o passado e presente, sem contornos definidos.