Governamentalidade da beleza: publicidade, IA e a reconversão simbólica da Dove
Publicidade e Consumo; Inteligência Artificial; Capital Simbólico; Governamentalidade; Dove Beleza Real.
Esta dissertação analisa a reconfiguração do discurso da campanha “Beleza Real” (Real Beauty) da marca Dove no contexto da ascensão da Inteligência Artificial (IA) Generativa. O trabalho investiga como a marca, ao longo de duas décadas (2004–2024), opera uma estratégia de reconversão simbólica, transformando valores sociais como diversidade e autoestima em ativos de distinção mercadológica. A pesquisa adota como metodologia a Análise Crítica do Discurso, articulada à sociologia de Pierre Bourdieu e aos conceitos de biopolítica e governamentalidade de Michel Foucault, para examinar um corpus composto por cinco marcos publicitários: Evolution (2006), Real Beauty Sketches (2013), Show Us (2019), Cost of Beauty (2023) e The Dove Code (2024). A análise demonstra que a Dove deslocou sua atuação da crítica à manipulação de imagem (Photoshop) para a gestão da infraestrutura da visibilidade e, mais recentemente, para a disputa pela ética nos códigos algorítmicos. Argumenta-se que, ao lançar diretrizes como o Real Beauty Prompt Playbook, a marca não apenas se apropria do discurso do feminismo de mercado e reage ao capitalismo de vigilância, mas institui uma pedagogia do prompt, transferindo para a usuária a responsabilidade de corrigir vieses estruturais racistas e sexistas inerentes aos modelos de IA. Conclui-se que a Dove se consolida como uma autoridade moral e técnica, gerindo a ansiedade estética contemporânea através de uma “autenticidade mediada” que, paradoxalmente, reforça a lógica de consumo e controle que diz combater.