Aplicações biológicas de Bauhinia monandra
Moluscicida; Produtos naturais; Esquistossomose; Seguridade ambiental; genotoxicidade
Bauhinia monandra, popularmente conhecida como pata-de-vaca, é uma espécie amplamente investigada devido à presença de metabólitos de interesse biológico, como flavonoides, terpenoides, taninos e compostos fenólicos. Esses constituintes conferem à planta diversas atividades biológicas potenciais, tornando-a alvo de estudos nas áreas botânica, farmacológica e ecológica. A esquistossomose é uma doença infectoparasitária negligenciada causada por helmintos do gênero Schistosoma, sendo endêmica em 78 países e territórios localizados em regiões tropicais e subtropicais da África, Ásia e Américas. Em ambientes aquáticos contaminados por fezes humanas, miracídios de Schistosoma mansoni, agente etiológico da esquistossomose no Brasil, infectam caramujos de Biomphalaria glabrata como parte de seu ciclo biológico. No interior do hospedeiro intermediário, as larvas evoluem para esporocistos primários (3 dias após a infecção) e secundários (14 dias após a infecção), originando cercárias aos 28 dias, forma infectante para o ser humano. Atualmente para o controle populacional do hospedeiro intermediário, a Organização Mundial da Saúde recomenda apenas o uso da niclosamida. Entretanto, sua aplicação é limitada devido à toxicidade ambiental e à baixa seletividade, restringindo seu emprego principalmente a áreas endêmicas. Considerando as atividades moluscicida e cercaricida previamente descritas para preparações de B. monandra, este estudo teve como objetivo avaliar os efeitos da fração proteica dessa espécie sobre miracídios de S. mansoni, incluindo sua capacidade infectante, bem como sobre caramujos B. glabrata infectados com o parasito nos estágios de esporocisto primário e secundário. Adicionalmente, foi realizada uma avaliação da segurança ambiental utilizando embriões de Danio rerio. A fração proteica reduziu a motilidade dos miracídios na concentração de 0,5 mg/mL após 30 minutos de exposição. Na concentração de 0,75 mg/mL, observou-se redução da motilidade em apenas 15 minutos, seguida de mortalidade de 100% dos organismos após 60 minutos de exposição. Além disso, quando avaliada a infectividade dos miracídios previamente expostos à fração, nenhuma infecção em caramujos foi observada a partir da concentração de 0,75 mg/mL. Em relação aos caramujos infectados, a concentração correspondente ao CL50 promoveu redução significativa na liberação de cercárias, com médias de 49 ± 21,21 (G3) e 30 ± 15,37 (G5), em comparação ao grupo controle (G1), que apresentou média de 143 ± 13,11 cercárias por grupo. A análise da motilidade cercariana demonstrou que as cercárias liberadas pelo grupo G3 apresentaram pontuação 1 durante todo o período experimental. As análises de hemócitos revelaram alterações morfológicas dependentes da dose, caracterizadas principalmente por apoptose e binucleação celular. Paralelamente, os ensaios de fragmentação de DNA evidenciaram danos genéticos significativos, predominantemente classificados nos escores 3 e 4, em comparação ao grupo controle. Por fim, a fração proteica não apresentou toxicidade para embriões de D. rerio nas concentrações avaliadas. Em conjunto, os resultados demonstram o potencial bioativo da fração proteica de B. monandra, capaz de reduzir a liberação e a motilidade de cercárias, além de comprometer a motilidade, viabilidade e infectividade dos miracídios após curtos períodos de exposição. Esses achados destacam seu potencial como uma alternativa segura e promissora para o controle da esquistossomose por meio da interrupção do ciclo biológico de S. mansoni.