Mulheres que tecem cidades: as linhas dos territórios têxteis da tapeçaria em Pernambuco
Tapeçaria Bordada; Território-Têxtil; Gênero; tapeceiras; cidades.
A pesquisa dedica-se ao estudo da tapeçaria bordada manual praticada por mulheres em Pernambuco, na articulação entre o saber-fazer têxtil de artesãs e o território. Aponta-se que os mecanismos vigentes de reconhecimento institucional dos “modos de fazer” operam de forma restrita ao dissociar as práticas culturais de artesãs e mestras das tramas relacionais e das dinâmicas territoriais ordinárias que lhes conferem sentido. O objetivo central da tese é investigar e ressignificar esses processos, demonstrando como o saber-fazer e a prática cotidiana das mulheres tapeceiras produzem e transformam espaços físicos, simbólicos e afetivos, visando dar visibilidade ao protagonismo feminino na história das cidades e repovoar o debate do patrimônio, da arquitetura e do urbanismo sob uma perspectiva de gênero. A metodologia adota um caráter interdisciplinar e qualitativo, valendo-se de fontes orais, escritas, iconográficas e hemerográficas no universo que abrange Recife (bairro da Iputinga), Camaragibe (Vila da Fábrica e Timbi) e Lagoa do Carro. O arcabouço empírico apoia-se nos relatos e trajetórias de artesãs e mestras registrados no acervo do projeto “Artesãs Têxteis de Pernambuco”. O referencial teórico mobiliza categorias como o "território usado" de Milton Santos, o conceito de “malhas” (meshwork) de Tim Ingold e Henri Lefebvre, a “corpora de conhecimentos” de Leda Maria Martins e a “trama têxtil” de Luciana Borre. Os resultados validam o conceito de território-têxtil, estruturado a partir de escalas de leitura articuladas pelas "Linhas" (do corpo, da casa, da calçada, da praça, da associação e da feira), demonstrando que o fazer da tapeçaria atua como agente ativo de produção espacial. Conclui-se que as sedes das associações operam como “linhas-guias” estruturais de uma complexa malha de sociabilidade e subsistência econômica e que, ao ocuparem espaços domésticos e urbanos, as mulheres tapeceiras costuram uma trama relacional invisível que ressignifica as fronteiras geográficas, provando que a identidade cultural e a inteligibilidade urbana são indissociáveis dos corpos e saberes femininos que performam a cidade.