Danças-da-maré: “espaço-referência cultural” e os lugares das comunidades pesqueiras do Pina-Recife/PE
Pesca Artesanal. Palafita. Fenomenologia. Morfologia. Cocriação. Comunidade do Bode.
Esta tese de doutorado investiga as complexas relações entre o patrimônio cultural imaterial e a morfogênese do ambiente construído em comunidades pesqueiras tradicionais, tomando como corte empírico a Comunidade do Bode, no bairro do Pina (Recife-PE). Diante das pressões históricas do planejamento urbano tecnocrático e higienista, que imputa o desenraizamento ontológico e o apartheid ambiental por meio de lógicas viárias exógenas, a pesquisa adota o campo epistemológico da Fenomenologia, Morfologia e Design Anthropology para propor uma contra-narrativa de projeto. A abordagem metodológica articula, de forma transdisciplinar, a imersão etnográfica, a fenomenologia do lugar e movimento e a modelagem configuracional da Space Syntax e Place Syntax. O objetivo central é instaurar um método de projeto espacial analítico-propositivo, estruturado de forma a salvaguardar as demandas comunitárias por espaços em que possam reproduzir suas práticas socioculturais e conservar seus lugares. Os resultados etnográficos e configuracionais demonstram que as palafitas do Bode operam como um dispositivo arquitetônico e urbanístico de contrapoder, cuja matriz genotípica espacial resiste por meio de regras invisíveis de espacialidade e copresença ligadas à "dança-da-maré". A modelagem sintática contrasta e demonstra o severo impacto segregador e desintegrador do projeto municipal oficial (PCR, 2022) com o cenário sugerido a partir da Oficina de Cocriação (2026), comprovando a evidente restauração da sinergia entre o território e o maretório promovidas pelas intervenções colaborativas que integram o saber técnico e saber corpóreo espacial tradicional. Conclui-se que as oficinas de cocriação, baseadas na manipulação tátil e na experimentação espacial, transcendem a consulta pública convencional para se consolidarem como um manifesto de ecologia política decolonial. Esse processo viabiliza a proposição e consolidação de espaços-referência cultural que fortalecem, intensificam e protegem o lugartradicional, materializando uma legítima "arquitetura-e-urbanismo-caranguejo" coprojetados soberanamente pelos sujeitos da comunidade tradicional para que possam manter, conservar e preservar suas danças-da-maré como um patrimônio integral.