TRADIÇÃO E MODERNIDADE: Permanências Coloniais na Arquitetura Contemporânea Pernambucana em Carpina (1974-1999)
Palavras-chave: Arquitetura contemporânea; Arquitetura moderna pernambucana; Pernambuco; Cultura açucareira; Residência unifamiliar.
Marcada pela busca de identidade entre tradição e modernidade, a produção arquitetônica pernambucana do século XX resulta de uma leitura crítica da realidade local, configurando-se como expressão dos princípios modernos em diálogo às condições culturais e ambientais do Estado. Embora frequentemente referida pela historiografia da arquitetura brasileira como extensão dos eixos Rio-São Paulo ou reduzida à condição regional, essa produção associa-se à construção de procedimentos projetuais locais, compartilhados por gerações de arquitetos a partir da década de 1950. Nesse contexto, os princípios difundidos pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Recife, ainda que vinculados às inovações tecnológicas e aos enunciados do movimento moderno, foram reinterpretados por arquitetos pernambucanos em atenção ao lugar, à cultura material e à herança histórica. Ao mediar tradição, referências históricas nacionais, concepções modernas e novas configurações técnicas, essa produção aproxima-se ao passado colonial, ao compreender, especialmente, a casa-grande como matriz mediadora do espaço doméstico pernambucano. Desde a colônia, a cultura açucareira constituiu orientação à formação econômica, territorial, social e simbólica de Pernambuco, ao qual, a casa colonial rural do engenho participa da memória espacial de longa duração, associada às hierarquias sociais, aos hábitos domésticos e à organização espacial. A partir dos anos 1970, em meio ao processo de desenvolvimento urbano e a novas demandas sociais, Carpina, situada na Zona da Mata Norte de Pernambuco, destaca-se na região ao manter vínculos econômicos e culturais com a tradição agropecuária. Nesse cenário, as residências incorporaram procedimentos derivados pela FAUR, articulando princípios modernos à herança açucareira. Assim, a pesquisa busca identificar como as permanências simbólicas e espaciais da casa colonial rural se manifestaram nas residências unifamiliares modernas construídas entre 1974 e 1999 em Carpina. O objetivo consiste em analisar as permanências do espaço arquitetônico vinculadas à casa colonial rural e suas manifestações nas moradias modernas do interior pernambucano, observando as relações entre tradição e modernidade, cultura e técnica, tendo a arquitetura como expressão das relações sociais, culturais e econômicas do território enquanto linguagem moderna. De abordagem qualitativa, descritiva e exploratória, a pesquisa desenvolve-se por revisão bibliográfica, levantamentos documentais e fotográficos, entrevistas com os agentes envolvidos e análise das residências quanto à organização espacial, à composição construtiva, aos materiais e ao contexto. Pretende-se, assim, contribuir para o reconhecimento historiográfico da produção moderna interiorana, evidenciando a permanência da tradição colonial na arquitetura local e ampliando a compreensão sobre a recepção da arquitetura moderna para além das capitais.