“OH ME ABRE OS PORTÕES DA JUREMA”: O ESPAÇO CONSTRUÍDO
E A IMAGÉTICA CULTURAL NOS TERREIROS DE JUREMA SAGRADA
NO INTERIOR DE PERNAMBUCO
Jurema Sagrada. Arquitetura Ritual. Cosmopercepção Afro-indígena.
Etnoespacialidade. Decolonialidade.
Esta dissertação analisa a relação entre espaço construído, materialidade e imagética cultural
nos terreiros de Jurema Sagrada localizados no contexto urbano da cidade de Pesqueira, no
interior de Pernambuco. Parte-se da compreensão da Jurema Sagrada como uma
cosmopercepção afro-indígena na qual território, corpo, memória e encantamento constituem
formas próprias de produção do espaço. O estudo investiga como os terreiros se configuram
como corpos vivos, cujas arquiteturas não se limitam a edificações fixas, mas se produzem
continuamente por meio da experiência ritual, da circulação dos corpos, dos objetos sagrados
e da presença encantada. Fundamentada em aportes da fenomenologia do espaço, das teorias
decoloniais e dos estudos afro-indígenas, a pesquisa adota uma metodologia sentipensante e
etnoespacial, que articula observação incorporada, escuta sensível, leitura da materialidade
construída e a vivência do pesquisador enquanto juremeiro. A análise evidencia que
elementos como o ponto riscado, os assentamentos, o chão ritual e os objetos consagrados
operam como dispositivos espaciais e políticos, organizando hierarquias, fluxos e modos de
permanência no interior dos terreiros. No contexto urbano, a dissertação demonstra que
estratégias de camuflagem, desvio e invisibilidade não configuram precariedade, mas formas
insurgentes de resistência frente às violências do urbanismo colonial e ao racismo religioso.
Ao compreender os terreiros de Jurema Sagrada como territórios encantados e tecnologias
vivas de produção do espaço, o trabalho contribui para os debates em arquitetura e urbanismo
ao deslocar categorias normativas de análise, propondo uma leitura que reconhece
epistemologias afro-indígenas como produtoras legítimas de conhecimento espacial.