INTERMITÊNCIAS (DE)COLONIAIS: COLONIALIDADE DO CORPO E DO ESPAÇO NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO DE ELIANA ALVES CRUZ
Romance brasileiro contemporâneo. Eliana Alves Cruz. Colonialidade do espaço. Colonialidade do corpo
A presente tese de doutorado investiga como as reminiscências de um passado
colonial se estabelecem como norma de colonialidade na representação literária
contemporânea, perpassando as dimensões da vida social, do trabalho, das sexualidades,
religiosidades e das subjetividades; considerando, especialmente, categorias como “corpo” e
“espaço” nos seguintes romances: Água de Barrela (2018a), Crime do Cais do Valongo
(2018b), Nada digo de ti, que em ti não veja (2020) e Solitária (2022), da escritora brasileira
Eliana Alves Cruz. Desse modo, esta pesquisa revisita as configurações históricas do
escravismo colonial (Gorender, 2016), cuja vigência se deu com maior intensidade entre os
séculos XVI e XIX, quando ainda persistiam os desmandos do tráfico de pessoas escravizadas
da África para o Brasil. Observa-se, também, como tais fenômenos dialogam com as
temporalidades do presente, atravessando-as por meio de vetores coloniais ainda persistentes,
a exemplo do racismo e da exploração em ambientes de trabalho com condições desumanas,
como é o caso da protagonista do livro Solitária (2022). Nesse sentido, a partir dos conceitos
de “colonialidade do espaço” e “colonialidade do corpo”, ideias-chave deste trabalho, propõe-
se a ampliação das fronteiras do pensamento que demarcam as concepções de “colonialidade
do ser, poder, saber e do gênero”, apontando que tanto o espaço como o corpo sofrem
intermitências coloniais: 1) o espaço, quando os grupos subalternizados são
desterritorializados do seu lugar de pertencimento em função de suas marcações identitárias [a
divisão racial do espaço, por exemplo, no entendimento de Lélia Gonzalez (2019)]; 2) o
corpo, quando ultrajado pelo necropoder e pelas doenças infecciosas que povoaram a
atmosfera dos navios, a senda dos cativeiros, os corredores dos engenhos e as vielas
dessanitizadas pelas quais transitavam, principalmente, as pessoas negras. Para tanto, os
seguintes pressupostos teóricos são utilizados: no que diz respeito às dinâmicas do romance
contemporâneo e da autoria feminina, discutem-se as abordagens de Dalcastagnè (2012),
Evaristo (2009), Figueiredo (2020), Forster (2005), Hutcheon (1991), Miranda (2019),
Morrison (2019), Woolf (2019), Zolin (2009), entre outras; e, no âmbito da teoria crítica da
colonialidade, utilizam-se as propostas de Castro-Gómez (2005), Césaire (2020), Dussel
(1977), Fanon (2002), Ferdinand (2022), Gilroy (2012), Grosfoguel (2016), Mignolo (2003),
Missiatto (2021), entre outras. Portanto, ficou evidente durante a análise das obras literárias
em estudo que – apesar das contínuas violências coloniais, das epidemias e da política de
morte legitimadas pelo necropoder – há um agenciamento subversivo performatizado por
diversos grupos de personagens, o qual abrange variados eixos da esfera social, geralmente
cooptados pelo dispositivo de colonialidade: no eixo da religiosidade, as mulheres
consideradas feiticeiras, curandeiras e demonizadas realizam as rupturas usando os saberes
ancestrais para se ligarem ao sagrado e não aderirem à imposição do catolicismo nem às
práticas religiosas da casa grande; no eixo do trabalho, as lavadeiras, amas de leite, escravas
de ganho e as empregadas domésticas protagonizam os sucessivos desvios dos tentáculos da
exploração, ora empreendendo fuga dos engenhos ora comprando a “liberdade”; e no eixo da
sexualidade, as personagens gays, travestis e prostitutas principiam a transgressão dos valores
moralizantes impostos a elas naquele contexto histórico.