A MEMÓRIA ANTIFASCISTA NA CONSTRUÇÃO DOS PERSONAGENS NÁUFRAGOS DE NATALIA GINZBURG
personagens náufragos; memória antifascista; trauma; Natalia Ginzburg; literatura italiana.
Esta tese analisa a construção narrativa de Natalia Ginzburg a partir de seu trabalho de memória antifascista, por meio dos personagens náufragos, compreendidos como figuras marcadas pela fratura histórica e pela sobrevivência ética e pela experiência da ruína em contextos autoritários, nos romances Todos os nossos ontem (1952), Léxico familiar (1963) e Caro Michele (1973). A pesquisa parte da hipótese de que diferentes configurações históricas do fascismo italiano — o regime histórico (1922–1945), sua elaboração memorialística no pós-guerra e os anni di piombo da década de 1970 — exigem estratégias narrativas específicas, capazes de responder às transformações da experiência histórica. O primeiro capítulo examina o lugar da história na ficção ginzburguiana, discutindo o fascismo como fenômeno histórico a partir das perspectivas de Clara Zetkin (1923) e Leandro Konder (2009), e como problema de representação literária à luz das análises de Vilma Arêas (2021). Nesse percurso, elabora-se o conceito de memória antifascista sobretudo a partir das contribuições de Maurice Halbwachs (1990) e Aleida Assmann (2011), em diálogo com Márcio Seligmann-Silva (2008). O segundo capítulo analisa as transformações dos narradores ginzburguianos a partir das perspectivas de Walter Benjamin (1987), Silviano Santiago (2002), Beatriz Sarlo (2007) e Alejandro Zambra (2018), observando a progressão da onisciência limitada de Todos os nossos ontem à primeira pessoa testemunhal de Léxico familiar, até a polifonia epistolar de Caro Michele. O terceiro capítulo desenvolve o conceito de personagem náufrago, ancorado na metáfora de José Ortega y Gasset (1964) e em sua sistematização por Ricardo Tejada (2003), analisando personagens centrais das três obras: Anna, Ippolito, o pai e Cenzo Rena, em Todos os nossos ontens; Leone Ginzburg e Cesare Pavese, em Léxico familiar; Michele e Mara, em Caro Michele. A tese demonstra que esses romances constituem, em termos analíticos, uma trilogia antifascista autobiográfica, compreendendo o autobiográfico não como confissão individual, mas como inscrição da experiência vivida — frequentemente testemunhal — numa rede coletiva de resistência, e o antifascismo não apenas como conteúdo temático, mas como recusa formal de autoritarismo narrativo.
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