A REELABORAÇÃO DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO ATRAVÉS DO INSÓLITO
EM OJEDA E ENRIQUEZ
Palavras-chave: Insólito; Dor; Ficções; Sul global; Horror[
Os contos selecionados de As coisas que perdemos no fogo e Las Voladoras apresentam um panorama contundente da violência de gênero no Sul global, explorando como o horror literário pode retratar o impacto contínuo de sistemas patriarcais opressores. A pesquisa elabora uma retrospectiva do uso do termo Insólito a partir de contribuições teóricas de críticos literários como Jaime Alazraki, que o colocam em oposição à narrativa realista-naturalista. Consequentemente, são examinadas as modalidades engendradas neste termo, como o fantástico, o realismo mágico, o estranho, o absurdo, o realismo animista e o maravilhoso, além do tipo híbrido. O uso do horror por ambas as autoras transforma o gênero em uma ferramenta crítica, desestabilizando narrativas tradicionais e permitindo um espaço em que a violência histórica contra as mulheres pode ser ressignificada e confrontada. Embora esta análise seja elaborada por meio de ficções sob a perspectiva das mulheres em paralelo à realidade social das mesmas no Sul global, é compreensível que, durante o percurso de refletir e comparar os cenários, note-se uma dimensão maior deste grupo, visto que a categoria de violência norteadora é a de gênero — isto, já que, para além dos corpos femininos, os feminizados também são hostilizados conforme uma misoginia intrínseca nas sociedades latino-americanas . Violência esta, conforme Rita Segato (2014) aponta em As estruturas elementares da violência, que por ser constantemente atualizada em seus mecanismos, fazem dos corpos femininos e feminizados os territórios mais vulneráveis e mais facilmente submetidos à representação de poder e controle, segundo uma ordem hegemônica ocidental.