VITALIDADE OU AMEAÇA DE EXTINÇÃO? A SITUAÇÃO SOCIOLINGUÍSTICA DA LÍNGUA INDÍGENA BRASILEIRA YAATHE (FULNI-Ô)
Língua Indígena Brasileira; Bilinguismo; Vitalidade linguística; Fulni-ô; Yaathe.
Esta tese avalia a vitalidade da língua Yaathe falada pelo povo Fulni-ô, residente no
município de Águas Belas, local em que se situa a Terra Indígena Fulni-ô. Inserido em
um contexto histórico marcado por mais de quatro séculos de contato intenso com a
sociedade não indígena, o povo Fulni-ô preserva sua língua ancestral como um dos
principais marcadores de identidade étnica, apesar das pressões sociopolíticas e
históricas que promoveram o apagamento e o silenciamento das línguas indígenas no
Brasil. Este estudo mapeia a extensão e a frequência de uso do Yaathe em diferentes
domínios sociais e a transmissão do Yaathe nos domínios Família e Comunidade,
principalmente. A investigação fundamenta-se em conceitos de bilinguismo, diglossia e
morte de línguas (Weinreich, 1953; Fishman, 1966; Ferguson, 1972; Appel e Muyskey,
1987), além de aplicarmos as escalas de avaliação de vitalidade de línguas ameaçadas
Escala de Interrupção Graduada Expandida (EGIDS) proposta por Lewis e Simons
(2010 [2009]) e o Quadro de identificação de línguas ameaçadas da UNESCO
(Brezinger at al. 2003), analisando sua adequação à realidade da língua Yaathe. Do
ponto de vista metodológico, a pesquisa adotou uma abordagem mista, combinando o
survey sociolinguístico (Babbie, 1999; Cooper, 1980) e a observação participante
(Shulist e Rice, 2019; Duranti et al., 2011; Schieffelin e Ochs, 1986), com aplicação de
questionários estruturados para coletar dados sobre uso, compreensão, extensão de
leitura e escrita e atitudes linguísticas. Os resultados apontam que o Yaathe apresenta-se
como uma língua viva, funcional e social e culturalmente significativa para o povo
Fulni-ô, com uma vitalidade estável e dinâmica, sustentada por práticas sociais e
comunitárias, fortemente articuladas em torno do tipo de interação tradições culturais. A
língua é usada por todas as gerações, embora com variações na frequência de uso
relacionadas aos fatores faixa etária, domínios de uso e tipos de interação. Com base
nesses resultados, a vitalidade do Yaathe foi avaliada de acordo com a escala EGIDS
(Lewis e Simons, 2010 [2009]. A língua foi classificada no nível 4 – Educacional, o que
a caracteriza como segura. Em contraste com a classificação de “severamente
ameaçada” atribuída pela UNESCO (2010), os dados quantitativos recentes, como o
aumento proporcional de falantes no Censo IBGE (2022), aliados à manutenção dos
domínios de uso e à análise qualitativa desenvolvida nesta tese, indicam que, mesmo se
avaliada de acordo com as categorias propostas no Quadro da Unesco (Brenzinger et al.,
2003 o Yaathe poderia ser classificada como língua “vulnerável”, rótulo que descreve
línguas utilizadas pela maioria das crianças, ainda que restritas a determinados
domínios, cenário que reflete com maior precisão a coexistência funcional do Yaathe
com o Português. Embora não esteja isento de desafios, o Yaathe apresenta um quadro
de vitalidade forte, sustentada pelo sentimento coletivo de identidade da comunidade,
pela transmissão familiar expressiva, pela prática contínua em diversos domínios, com
maior expressão para o tipo de interação tradição cultural, em todos os domínios
testados. Para a avaliação e classificação proposta, consideramos também a
alfabetização sustentada institucionalmente e a adaptação progressiva da língua a novos
suportes, tecnologias e mídias.