O layout na construção dos sentidos dos webquadrinhos: uma abordagem multimodal
Multimodalidade. Texto. Layout. Webquadrinhos.
O layout tem um papel essencial na construção de um produto, seja ele um livro impresso ou digital, um website, uma embalagem, um cartaz publicitário etc., tendo as funções de organizar os elementos verbais e não verbais e orientar o leitor (Kress, 2010). O layout também é fundamental para os webquadrinhos, objeto de estudo desta tese, que são quadrinhos publicados em sites, redes sociais, blogs, capazes de incorporar novos modos e recursos semióticos possibilitados pela mudança de suporte. Diante disso, nosso objetivo é investigar, à luz da multimodalidade, como os recursos semióticos são organizados para a construção dos sentidos dos webquadrinhos, com base no layout. Para fundamentação, temos por base teórico-metodológica a multimodalidade (Kress e van Leeuwen, 2006; van Leeuwen, 2005; Kress, 2010); no que concerne ao layout, nos pautamos em Ambrose e Harris (2011), Guerra e Terce (2019) e Hurlburt (1999); e, por fim, para discussão sobre webquadrinhos, trouxemos as vozes de Franco (2004; 2013) e McCloud (2006). A proposta metodológica foi construída com base em Baldry e Thibault (2010), tendo o frame como unidade de análise e considerando a dinamicidade do objeto de estudo, Kress e van Leeuwen (2006), com as metafunções representacional, interativa e composicional, da Gramática do Design Visual - GDV, bem como às categorias oriundas dos estudos de layout citados. Com isso, esta pesquisa foi desenvolvida a partir das seguintes etapas: 1) revisão da literatura sobre multimodalidade; 2) revisão da literatura sobre webquadrinhos; 3) revisão da literatura sobre layout; 4) leitura dos webquadrinhos; 5) seleção das cenas; e 6) a análise. O corpus é constituído por webquadrinhos que foram premiados ou indicados ao Eisner Awards e ao Trófeu HQMix, tendo como critério de escolha os webquadrinhos publicados em sites e que trazem novas possibilidades semióticas. Assim, analisamos os seguintes webquadrinhos: O Diário de Virgínia, de Cátia Ana, Cabramatta, de Matt Huynh, e Deeply Dave, de Michael Grover. A escolha de categorias não se restringe à GDV, mas também aos estudos a respeito do layout e dos webquadrinhos. Com base nas análises prévias, as categorias de maior recorrência no corpus foram: o quadro, o ponto de entrada, a orientação, as margens e a estruturação, articuladas às metafunções da GDV. Constatou-se que em O diário de Virgínia, o layout não estruturado, baseado na experimentação, incide sobretudo sobre novas formas de orientação de leitura, fundamentais na construção dos capítulos, resultando em (re)leituras e (re)descobertas. Em Cabramatta, o layout estruturado é inspirado em sistemas de localização geográfica, em que os quadros emergem do centro ou diminuem até desaparecer e simulam a exploração de memórias biográficas do personagem. Por fim, em Deeply Dave, o layout estruturado, com uma disposição de quadros de cima para baixo, criando o efeito de tela infinita (McCloud, 2006), auxilia na construção do sentido de que o personagem principal está adentrando cada vez mais fundo no mar.