GINGA DA SEIVA VIDA EM ROTAÇÃO: UMA LEITURA DOS AFETOS COSMOANCESTRAIS EM PLANTA ORAÇÃO, DE CALILA DAS MERCÊS, E IXÉ YGARA VOLTANDO PARA 'Y'KÛA, DE ELLEN LIMA
Afeto; Ancestralidade; Poética da natureza; Identidade
Considerando o entrecruzamento de limites e fronteiras, nossa pesquisa baseia-se em escritos de mulheres das literaturas afro-brasileira e indígena, de modo a analisar a modulação da palavra-gesto (Freitas, 2016) em perspectiva interétnica, ação que resgata o que denominamos de afetos cosmoancestrais. Estes, entre semelhanças e diferenças tomando os cenários em relação, retomam o conceito de afeto para Espinoza (Deleuze, 2002), que defende ser ele um estado de (re)criação de imagens-efeito transgressoras da matéria e memória, envolvendo uma natureza de afecção visível e invisível. A nossa aplicação insere, nas trocas evidenciadas pelos textos literários selecionados, uma relação de (re)conexão do ser com o meio, de modo a circular experiências no sentido ontológico da percepção, o que se desvela em categorias como memória (Bá; Morrison; Martins; Werá), identidade (Fanon; Anzaldúa; Hooks, Luz; Silva), ancestralidade (Oliveira; Tavares; Sodré; Falcão) e oralidade (Martins; Momaday; Irobi), todas relevantes para a progressão do estudo. Para a constituição dessa dissertação foram visitadas as obras: Planta Oração, de Calila das Mercês e Ixé ygara voltando pra ‘y’kûá (sou canoa voltando pra enseada do rio), de Ellen Lima. As produções conferem à coletâneas de poemas e contos, todos escritos e pensados por mulheres negras e indígenas. Originários e afro-brasileiros são críticos da modernidade, e abordam uma nova prática quanto à relação com o ambiente e o mundo na medida que revisitam saberes, imagens, imaginações e o imaginário. Em suas literaturas, essas mulheres articulam conhecimentos, e não somente conceitos, de forma autônoma, pois estão comprometidas com a crítica e a originalidade em um caminho de convergência das cosmogonias ancestrais, vinculadas em um panorama multimodal que mede as experiências e suas cargas simbólicas e semânticas (Fontes; Hotimsky), rasurando as biopolíticas modernas a partir da palavra lançada. Nosso objetivo, portanto, consiste em recuperar, por intermédio de um corpus que abriga em si obras contemporâneas feitas por mulheres, as cosmopercepções dos afetos com vistas a conceder um novo olhar sobre a crítica literária dos afetos, em perspectiva do que se configurou denominar decolonialidade (Mignolo; Ferdinand). Como justificativa, cremos que evocação da palavra, para além dos parâmetros da ética e da estética, toma ela como um hábito e um espaço sagrados, de modo que deriva e retroalimenta as relações entre linguagem, experiência e sonho, objetos essenciais ao que entendemos como vida, e por isso a retomada de sentidos em um arco de partilhas é o que mobiliza esta pesquisa. A linguagem, a palavra e os gestos, todos em performance além-tempo (Martins), movem e constroem os mundos das literaturas experienciadas. A escrita e a oralidade batucam dentro do discurso. Nesse viés, dentro da perspectiva dos afetos cosmoancestrais, destacamos também a estética da terra (Glissant) e o pensamento enterreirado (Flor), filosofias de fortalecimento da memória, do corpo, da natureza e da identidade dos sujeitos, ciclos de estímulo ao sonho e à abertura radical de um espaço de partilha. Os afetos da terra, em caráter cosmoancestral como definido e defendido por nós nessa investida, cruzam as fronteiras e limites e encontram na linguagem de originárias e escritoras afro-brasileiros um espaço epistemológico baseado na multiplicidade das vivências, um destilado objetivo da força das subjetividades.