POSIÇÕES SUJEITO NO DISCURSO PÓS-PROTESTANTE DA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS
Discurso religioso. Igreja Universal do Reino de Deus. Pós-protestantismo/Neopentecostalismo. Posições-sujeito.
Esta tese toma o instrumento teórico da Análise de Discurso, à luz de seu fundador, Michel Pêcheux (1938-1983), para investigar a discrepância entre dois domínios de saberes no discurso religioso pós-protestante/neopentecostal. Saberes contemplados por disputas ideológicas, que se mostram no interior da formação discursiva cristã, bem como no interior da formação discursiva da teologia da prosperidade, determinada pela formação ideológica neoliberal. Tais formações discursivas confrontam-se pela discrepância entre sujeitos distintos: o sujeito do discurso bíblico e o sujeito inscrito no discurso da teologia da prosperidade. Este último enuncia a partir das condições históricas da Confissão Positiva, reconhecida, mais tarde, como teologia da prosperidade. Em outras palavras, buscamos desenvolver uma abordagem discursiva do discurso religioso pós-protestante/neopentecostal, que articula os problemas da prosperidade e da fé na religião. Propomo-nos a realizar uma análise discursiva do discurso da Igreja Universal do Reino de Deus, a partir da fala do bispo Edir Macedo. Trata-se de uma pesquisa, cujo foco consiste na produção do discurso pós-protestante/neopentecostal, a partir de enunciados assumidos pelo sujeito bispo Edir Macedo, de 1977 a 2019. Com isso, a proposta é refletir sobre o funcionamento das posições-sujeito no discurso mercadológico-religioso, a partir da fala do bispo Edir Macedo, para observar como o sujeito enunciador se relaciona, nesse discurso, com o sujeito universal, inscrevendo-se nas formações discursivas a partir das modalidades de subjetivação cunhadas por Pêcheux ([1975a] 2014). A hipótese levantada nesta tese é de que o neopentecostalismo não é uma continuidade do pentecostalismo.Daí, propormos pós-protestantismo em vez de neopentecostalismo. As análises tiveram como objetivo compreender como o sujeito do discurso enuncia para seus interlocutores, em geral, os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus. É nesse sentido que se pode entender o que se chama aqui de sujeito porta-voz de Deus, o bispo Edir Macedo: ele não se mantém enunciando na formação discursiva cristã. Como pudemos verificar a partir das análises do corpus, pelos processos discursivos (sistema de relações de substituição, paráfrases, sinonímias etc.), constatamos que o discurso do bispo Macedo possui um funcionamento parafrástico, ou seja, as formulações do bispo Macedo já foram parafraseadas antes por outro sujeito, o sujeito Kenneth Hagin, o líder estadunidense que popularizou e sistematizou a teologia da prosperidade. Com base na modalidade de subjetivação, a identificação, conforme Pêcheux ([1975a] 2014), as análises mostraram que o sujeito enunciador, bispo Macedo, fala para os fiéis da Igreja Universal que ele é um porta-voz de Deus, pois se inscreve na formação discursiva cristã, o que lhe permite ocupar a posição-sujeito de porta-voz de Deus. No entanto, pela tomada de posição sob a modalidade de posição-sujeito que Pêcheux (1975a] 2014, p. 201) designa como desidentificação, o sujeito bispo Macedo se mostra, no discurso, como sujeito empreendedor e passa a ocupar essa posição-sujeito. Ou seja, no processo de identificação, o sujeito bispo Macedo se identifica com a formação discursiva cristã, ao mesmo tempo que dela se desidentifica, passando a falar pelos saberes da formação discursiva da teologia da prosperidade. Ao produzir a desidentificação, da parte do sujeito, o que acontece é o deslocamento de uma posição-sujeito para outra. Todas essas observações, por sua vez, possibilitaram a compreensão, de nossa parte, de que a formação discursiva dominante no discurso do bispo Edir Macedo não é a formação discursiva cristã e sim a formação discursiva da teologia da prosperidade. Com isso, verificamos que o sujeito bispo Macedo não fala em nome de Deus, fala em nome do mercado que se instaura no discurso pós-protestante/neopentecostal, como o “messias” do mundo.