Representações do objeto direto anafórico de 3ª pessoa: o fenômeno a partir das crenças linguísticas, da fala e da escrita de estudantes da educação básica em Camaragibe-PE
Objeto Direto Anafórico. Variação. Crença. Escrita. Fala.
Considerando as mudanças no quadro de clíticos do Português Brasileiro, o que o torna cada vez mais distinto do Português Europeu (cf. Kato, 2017; Cyrino, 2018, 2019; Nunes 2018, 2019; Duarte et. al. 2021), e a escassez de pesquisas que considerem os usos e a avaliação linguística de um mesmo falante quanto à variação das estratégias de representação do objeto direto anafórico de 3ª pessoa no âmbito escolar, o objetivo principal desta pesquisa foi investigar esse fenômeno variável a partir das crenças linguísticas e da produção (falada e escrita) de estudantes de diferentes etapas da educação básica. Assim, adotamos os pressupostos teóricos da
Sociolinguística Variacionista (cf. Weinreich, Labov e Herzog (2006) [1968]; Labov (2008) [1972]) e o conceito de crença fundamentado em Lambert e Lambert (1972), do campo da Psicologia Social. Levantamos as hipóteses principais de que tanto na fala quanto na escrita dos estudantes há variação nas estratégias de retomada do objeto direto de terceira pessoa, sendo raro o uso do clítico, sobretudo nos dados orais, e que o processo de escolarização tem impacto na construção de crenças linguísticas, havendo crenças que evidenciam o prestígio social que a variante padrão possui. Este estudo empírico contou com a participação de sessenta estudantes de duas escolas públicas de Camaragibe – PE, distribuídos de acordo com três níveis de escolaridade (6º e 9º ano do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio). Os corpora da produção oral e escrita foram compostos por contextos linguísticos nos quais se verificou a presença do objeto direto anafórico de 3ª pessoa, extraídos de entrevistas e de textos narrativos e dissertativos produzidos pelos estudantes. Para a análise do comportamento de cada variante sob o efeito das variáveis linguísticas e extralinguísticas associadas ao fenômeno, seguimos as orientações metodológicas da Sociolinguística Quantitativa (Guy; Zilles, 2007), submetendo os dados ao tratamento quantitativo por meio o programa computacional Goldvarb-X. Para a identificação das crenças linguísticas, aplicamos um teste com abordagem direta composto por dezesseis perguntas objetivas sobre a estética e a correção gramatical de cada variante e quatro perguntas abertas a partir das quais os estudantes precisaram associar o uso do clítico ou do pronome lexical à prática de alguma profissão. Quanto a esses dados de avaliação linguística, submetemos as respostas às perguntas objetivas a uma análise estatística e as respostas às perguntas abertas a uma análise qualitativa. Após a obtenção dos resultados quantitativos, realizamos análises comparativas entre os dados da fala e da escrita e entre os resultados da produção e os das crenças linguísticas. Os resultados gerais dos usos linguísticos apontaram o objeto nulo como a estratégia preferida para a representação do objeto direto anafórico de 3ª pessoa em ambas as modalidades da língua e a baixa frequência do clítico, cujo uso é mais comum na língua escrita e aumenta conforme aumentam os anos de escolarização. Sobre as crenças linguísticas, observamos que o clítico tende a receber más avaliações quanto à estética e à correção gramatical, mesmo entre os estudantes de séries mais avançadas, o que coaduna com os resultados de produção. No entanto, a partir das perguntas abertas, pudemos perceber que ele é associado a profissões que exigem maior nível de escolaridade e desfrutam de status social, crença que atesta o prestígio de que goza a variante padrão desse fenômeno, apesar de ser ela pouco produzida por esses estudantes.