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Banca de QUALIFICAÇÃO: CLARISSA CORBAN BRITO GUERRA

Uma banca de QUALIFICAÇÃO de DOUTORADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE: CLARISSA CORBAN BRITO GUERRA
DATA : 03/12/2025
LOCAL: UFPE
TÍTULO:

O IMPROVÁVEL INVENTÁRIO DE PERTENCIMENTOS DOS INDIVÍDUOS AFRODIASPÓRICOS ESCRAVIZADOS: a coexistência com os traumas nas obras AMADA, de Toni Morrison e PONCIÁ VICÊNCIO, de Conceição de Evaristo


PALAVRAS-CHAVES:

Trauma; (re)memoria; ancestralidade; escrevivência; diáspora negra; escravidão; descolonização


PÁGINAS: 155
RESUMO:

Esta tese propõe uma leitura comparativa entre os romances Amada (1987), de Toni Morrison, e Ponciá Vicêncio (2003), de Conceição Evaristo, com o objetivo de investigar de que modo as duas autoras reelaboram, pela via literária, as marcas psíquicas e históricas da escravidão. As obras, oriundas de contextos distintos, mas atravessadas por uma mesma experiência diaspórica, constroem representações da memória e do trauma que ultrapassam o plano individual e alcançam o coletivo, reconstituindo os vínculos entre sujeito, corpo, ancestralidade e história. Ambas as narrativas confrontam o apagamento histórico imposto pelo colonialismo e propõem um retorno simbólico ao passado como forma de reconstrução identitária e resistência. O diálogo entre Morrison e Evaristo inscreve-se na tradição das literaturas afro-diaspóricas e de mulheres negras que reconfiguram o cânone, reposicionando o sujeito negro no centro da linguagem. Em Amada, Morrison revisita o trauma da escravidão por meio da rememoração fragmentada e da figura espectral de Beloved, que corporifica o passado reprimido e a impossibilidade de esquecer. Já em Ponciá Vicêncio, Evaristo opera o gesto da escrevivência, fundindo memória coletiva e experiência pessoal, em uma escrita em que o corpo e a palavra se tornam espaços de reexistência. Ambas as autoras constroem uma poética da memória em que o testemunho da dor é também gesto de resistência, em diálogo com uma linhagem de mulheres negras que transformam o trauma em criação. O referencial teórico articula o comparatismo literário, a psicanálise, os estudos decoloniais e as teorias da memória, permitindo compreender o trauma como fenômeno simultaneamente psíquico, histórico e racializado. As contribuições de Freud e Lacan iluminam a noção de trauma como irrupção do real e retorno do recalcado, enquanto Jung e Fanon ampliam a leitura para o inconsciente coletivo e a alienação racial decorrente da colonização. Assim, a memória nas obras analisadas é entendida como espaço de transmissão intergeracional do sofrimento e também de elaboração simbólica do passado. Essa dimensão é reforçada pelos conceitos de rememory, em Morrison, e escrevivência, em Evaristo — ambos compreendidos como processos de reinscrição do sujeito negro na história por meio da palavra e da ancestralidade. Todavia, a análise demonstra que o trauma, embora revisitado e simbolicamente elaborado, não é plenamente superado. A linguagem poética e memorialística das duas autoras não oferece redenção ou salvação definitiva para os sujeitos diaspóricos; ao contrário, expõe o caráter inacabado da ferida colonial. As narrativas estruturam-se em uma temporalidade fragmentada e circular, na qual o passado se impõe continuamente sobre o presente, configurando um loop temporal em que as personagens revivem, de modo reiterado, a dor e a violência da escravidão. Nesse sentido, o tempo literário torna-se um espaço de suspensão, em que a lembrança é simultaneamente fonte de força e de sofrimento, de reconstrução e de aprisionamento. Ao colocar em diálogo as tradições literárias afro-estadunidense e afro-brasileira, a tese evidencia convergências entre as neo-slave narratives e a literatura afro-brasileira contemporânea, destacando o papel ético e político da escrita como forma de resistência e reconstituição do ser negro na diáspora. Morrison e Evaristo constroem universos narrativos em que o trauma não se encerra no sofrimento, mas tampouco se converte em plena cura: ele persiste como lembrança viva, convocando à rememoração e à denúncia. Escrever, para ambas, é um ato de libertação e sobrevivência, mas também o testemunho de que o passado ainda habita o presente e continua a exigir novas formas de elaboração e escuta


MEMBROS DA BANCA:
Interno - 1420448 - RICARDO POSTAL
Externa à Instituição - ROSINÊS DUARTE - UFBA
Notícia cadastrada em: 13/11/2025 16:28
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