Um elo entre dois mundos: a representação do feminino e a manifestação da loucura em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo e Kim Jiyoung, nascida em 1982, de Cho Nam-Joo
loucura; feminino; literatura afro-brasileira; literatura sul-coreana.
Considerada um dos grandes mistérios da existência humana, a loucura tem sido historicamente incompreendida e reinterpretada de múltiplas formas. Ao longo do tempo, diferentes discursos a utilizaram como meio para legitimar formas de exclusão, subjugação e opressão, especialmente contra corpos e vozes que desafiaram normas sociais naturalizadas como corretas e imutáveis. Partindo dessa perspectiva, esta pesquisa se propõe a desenvolver uma análise comparativa entre as obras Ponciá Vicêncio, da afro-brasileira Conceição Evaristo e Kim Jiyoung, nascida em 1982, da sul-coreana Cho Nam-Joo, tendo como categorias de análise a representação do feminino e a manifestação da loucura em resposta às opressões sociais e de gênero. Desse modo, busca-se compreender de que modo as protagonistas, inscritas em contextos culturais distintos, expressam experiências de silenciamento, exclusão e resistência. Para isso, a pesquisa apoia-se em uma base teórica plural que articula reflexões de Michael Foucault, Judith Butler e Angela Davis acerca das relações entre loucura, poder, gênero e
subjetividade, dialogando também com estudos brasileiros sobre a história da loucura e da mulher, como os de Daniela Arbex, Maria Clementina Cunha e Mary Del Priore. No âmbito dos estudos sul-coreanos, a análise se ancora em teóricos como Thedore Jun Yoo, Seungsook Moon, Jeong Hae Young e Choo Hae Yeon, que trazem considerações interessantes a respeito do sofrimento psíquico no país e problematizam as transformações do feminino na sociedade sul-coreana. Essa confluência teórica possibilita compreender como a loucura, nas obras analisadas, configura-se não como desvio patológico, mas como forma de denúncia e ruptura diante de estruturas patriarcais e coloniais que definem e limitam o feminino.