VIAGEM AO REDOR DA BIBLIOTECA: O RESGATE DA AEMULATIO EM EVGUIÊNI ONIÉGUIN, DE ALEKSANDR PÚCHKIN E DOM CASMURRO, DE MACHADO DE ASSIS
poética da emulação; aemulatio; Evguiêni Oniéguin; Dom Casmurro; Aleksander
Púchkin; Machado de Assis.
Esta dissertação intenta investigar de que maneira o poeta russo Aleksandr Púchkin e o escritor brasileiro Machado de Assis, a partir de uma atualização da aemulatio, nos moldes estabelecidos por João Cezar de Castro Rocha (2013), superaram a imitação acrítica dos tipos canônicos, sem renunciar à influência de seus predecessores locais e estrangeiros, e, em razão disso, evidenciaram as contradições entre o culto romântico à originalidade e a prática comum de cópia das narrativas europeias das literaturas em formação no século XIX. O uso da poética da emulação, técnica marcadamente anacrônica, apresenta-se, sobretudo, em seus principais romances, Evguiêni Oniéguin (1825-1832) e Dom Casmurro (1899), obras influenciadas pelo cânone ocidental, mas que, em suas respectivas literaturas nacionais, são tidas como marcos fundacionais da criação literária. Para tanto, pretendemos comparar os romances em questão, a fim de observar o uso e a reformulação que Púchkin e Machado propuseram de tradições a exemplo do byronismo, do shakespearianismo e do shandianismo, além de observar a presença do bom legado de seus próprios conterrâneos nos textos de ambos. Ademais, teremos como base um panorama do termo aemulatio, desde suas origens na mímesis grega, até os recentes trabalhos sobre influência. Com isso, não intentamos exercer o papel de crítica policialesca de influxos internacionais nos trabalhos de dois autores que, embora não se encontrem em posições equivalentes de autoridade fora de seus países, em sua época, não ocupavam lugares notáveis na República das Letras. Pelo contrário, observamos
a maneira como esses autores renovaram sua escrita por meio de uma relação complexa, característica da aemulatio, entre o respeito e rivalidade às obras lidas em suas bibliotecas. O diálogo entre Machado e Púchkin, portanto, parece demonstrar que, malgrado textos literários escritos por nomes que não surgiram dos espaços culturalmente mais influentes sejam, com frequência, excluídos do corpus clássico metropolitano, a emulação do repertório canônico, se exitosa, pode emancipar escritores à margem.