JOGOS DE LINGUAGEM, MÁQUINAS DE SENTIDO: narrativa contemporânea e adventures como ficção expandida
Literatura contemporânea. Jogos eletrônicos. Tecnologia. Estudos de mídia. Cultura digital.
Nesta tese, investigo as configurações da narrativa contemporânea ao propor que a presença de elementos da linguagem digital não constitui nela exatamente uma ruptura, mas representa uma explicitação de princípios operacionais já em curso no interior da própria literatura. Com a preocupação de partir da materialidade do literário proponho, em exemplos produzidos no final do século XX, que um caráter maquínico e procedimental está há muito ligado a uma lógica que se manifesta na interatividade e performatividade da leitura. Para mapear essa genealogia estabeleço, na primeira parte da tese, um arco que vai do texto ao dispositivo, mobilizando teóricos que entendem o ato literário como uma prática técnica (Barthes, 2004, 2007; Derrida, 1987, 2005) a partir do exame de três obras que performam essa consciência da escrita como operação: Se um viajante em uma noite de inverno, de Italo Calvino (1979); Pilgrim in the Microworld (1983), de David Sudnow; Micro servos (1995), de Douglas Coupland. Nelas, o livro, o corpo e a subjetividade são abordados como máquinas de processamento de sentido, revelando uma literatura que já se pensa como interface (Hayles, 2002 e 2005). Na segunda parte, transponho essa genealogia para o campo das ficções eletrônicas, tomando o adventure como herdeiro dessa tradição operativa. Com base no conceito de ficção expandida (Krauss, 2008), analiso três jogos do gênero produzidos no século XXI – Blackwell Series (2014), The Red Strings Club (2018) e Kentucky Route Zero (2013) – como narrativas que operam simultaneamente os planos textual, gestual e técnico. Eles serão examinados através de instrumentais que impulsionam deslocamentos de referenciação da linguagem: a intertextualidade e a metaficção (que reinscreve a literatura), a intermidialidade (que expande o texto ao longo de outras linguagens), e a capacidade de reconfiguração das textualidades (que transforma a leitura em potência). Busco com esta análise habitar um entrelugar teórico que sustenta que a estética digital reconfigura o universo do texto literário, manifestando a máquina que o próprio livro outrora já continha. Por fim, minha proposta enquanto tese defende a continuidade criativa entre a literatura e a tecnologia, onde a permanência do literário reside em sua capacidade de adaptação aos novos suportes e linguagens