A presença do narrador moderno e os mecanismos de memória em Primeiras Estórias de Guimarães Rosa
Guimarães Rosa, contos, narrador, memória.
O presente trabalho se insere nos estudos da forma literária, visando compreender os modos como a memória é mimetizada nos contos de Primeiras estórias, de Guimarães Rosa. Nesse contexto, busca-se investigar como essa memória permeia a relação do narrador com o mundo roseano e como os mecanismos de lembrar e esquecer influenciam a construção dessa narrativa. Considerando a crise da representação moderna, tanto o trabalho com a forma como a gênese dos narradores colocam em suspensão as histórias, criando uma atmosfera de incerteza e instabilidade em torno do que é narrado. Para pensar sobre isso, utilizou-se as considerações de Adorno (2003), Rosenfeld (1985) e Benjamin (1985) sobre a crise da representação e as narrativas modernas, que trazem a subjetividade como um centro incontornável nos modos de narrar. Para a discussão sobre memória, utilizou-se Freud (1899/1996), especialmente o seu conceito de memórias falsas, que exemplificam a questão da desconfiança sobre o lembrar e, por conseguinte, das memórias. Além disso, considerou-se as reflexões de Assmann (2011), a fim de debater os mecanismos da recordação e os estabilizadores da memória — especialmente o afeto e o trauma; e Halbwachs (2024), para compreender os aspectos coletivos da memória. Por fim, objetivou-se analisar os contos roseanos unindo essas chaves de leituras da narrativa moderna e dos processos da rememoração, para investigar como esse trabalho com a forma narrativa e com a construção do narrador reflete as incertezas do eu e do lembrar e, consequentemente, da narrativa como um todo. Nesse processo, as histórias foram agrupadas de acordo com os mecanismos de mimetização da memória mobilizados pelos narradores.