Não é por outro motivo que falo como falo: análise de elementos retóricos, em Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
Retórica; Estilo, Pathos; Ethos; Lavoura arcaica.
Esta tese tem como objetivo identificar e analisar elementos retóricos no romance Lavoura arcaica, do escritor paulistano, Raduan Nassar, publicado em 1975. Apesar de cultivado numa forma moderna, a romanesca (Lukács, 2009), o texto ficcional em análise acena para a presença de diversos elementos pertencentes à retórica, área de conhecimento que, até o século XVIII (Hansen, 2013; Barthes, 1990; Todorov, 1979), doava noções e preceitos ao fazer na prosa e na poesia (Marrou, 19973; Hansen, 2013). Abarcando diversos gêneros (Bakhtin, 2006; 2002), como é o caso do sermão, da parábola e do provérbio, o romance presentifica concepções e aspectos caros às retóricas grega e latina. Nassar, a partir de três operações retóricas, da inventio (invenção), da dispositio (disposição) e da elocutio (elocução) (Aristóteles, 2005; Cícero, 2009, 2017; Anônimo, 2005; Hansen, 2023), mobiliza, verossimilmente, a forma do gênero, que, por sua vez, é convertido num sermão ficcional, contendo as seguintes partes retóricas: demonstração, narração e epílogo. Pelo personagem patriarca da família, a demonstração, no sermão, é realizada por via de argumentos que provêm de lugar-comum, como são provérbios (Jolles, 1976) e conceitos. Como ele intenta moralizar os filhos, concomitantemente a esse objetivo, forja-se, na narrativa, o ethos do personagem (Aristóteles, 2005; Cícero, 2009, 2014, 2021; Meyer, 2009; Quintiliano, 2015b), como sendo alguém de autoridade (Aristóteles, 2005), virtuoso (Lebrun, 2009; Quintiliano, 2015b) e educado na reta razão (Cícero, 2021). A linguagem no sermão dá-se, em estilo elevado, e se faz com uso de figuras, como é o caso de anáfora (Lausberg, 1967), de amplificação (Anônimo, 2005; Cícero, 2009; Lausberg, 1967) e de metáfora (Vilela, 1996; Longino, 1995). Ademais, cumprindo função de exemplo (Sant’Anna, 2010) ao sermão realizado, identifica-se também a presença de uma pequena história, a parábola do faminto. Merece, ainda, destaque o personagem narrador, André, quem, na narrativa, busca contestar a mundividência paterna, por meio de um discurso que fala de identidade, do corpo, do amor e do desejo. É, então, que, nesse pólo oposto, vê-se, a presentificação de outros aspectos retóricos: como pathos (Cícero, 2014, 2021; Lebrun, 2009; Meyer, 2000) e, no que concerne também ao estilo, de outras figuras, além de metáfora e de anáfora, como é o caso de hipérbole (Aristóteles, 2005; Longino, 1995) e de ambiguidade (Ilari e Geraldi, 2006) além de perguntas retóricas (Barilli, 1979). Sem prever a separação do plano da expressão do plano do conteúdo, conclui-se que o romance apóia-se, na concepção retórica, do bem escrever (Longino, 1995, Hansen, 2013). Por fim, dada a presença de elementos oriundos das retóricas grega e latina, em Lavoura arcaica, é possível dizer que se faz sentir, no romance, nuance neoclássica, a despeito de sua forma romanesca.