O avesso da representação: mímese e subjetividade racial em O avesso da pele, de autoria Jeferson Tenório
mímese; racismo; psicanálise; subjetividade
Esta dissertação analisa o romance O avesso da pele, de Jeferson Tenório, com o objetivo de compreender de que modo a forma literária reorganiza a experiência do racismo, deslocando-o de uma dimensão meramente representacional para uma experiência estética através de uma representação de aspectos subjetivos do sujeito. Partindo das contribuições teóricas de Luiz Costa Lima, especialmente no que se refere à mímese como produção de diferença, e de Wolfgang Iser, no que tange à relação entre texto e leitor, o trabalho propõe que a literatura não reproduz a realidade, mas a reconfigura, produzindo deslocamentos de sentido. A análise também mobiliza aportes da psicanálise, sobretudo de Jacques Lacan e Isildinha Baptista Nogueira, bem como as reflexões sobre raça e sociedade desenvolvidas por Sueli Carneiro e Cida Bento, a fim de compreender como a racialização incide na constituição do sujeito. Ao privilegiar a narrativa de Pedro como construção discursiva opaca e não como relato reflexológico dos acontecimentos, a dissertação evidencia que o romance formaliza a experiência do racismo por meio da fragmentação narrativa, da centralidade do corpo e da constituição de relações de alteridade marcadas pela cor da pele. Em vista disso, as relações amorosas do personagem Henrique, assim como suas experiências corporais e sociais, ganham destaque como espaços privilegiados de manifestação dessa subjetividade cerceada, na qual o desejo, a identidade e o reconhecimento são atravessados por dinâmicas raciais historicamente construídas. Por isso, argumenta-se que a força do romance está na sua capacidade de deslocar representações cristalizadas, não apenas denunciando a violência racial, mas produzindo no leitor um efeito de estranhamento que torna sensível a experiência subjetiva do racismo. Conclui-se, portanto, que a mímese, entendida como repetição pela diferença, permite à literatura não apenas fazer refletir o mundo social, mas intervir nele ao desestabilizar imaginários consolidados e ampliar as possibilidades de compreensão da experiência negra enquanto uma experiência de um indivíduo não homogeneizado no Brasil contemporâneo.