KUMIÇA IUIRIA E OS ECOS DOCENTES: a Educação Literária Decolonial como canoa e a Poesia de Márcia Wayna Kambeba como remo na Sala de Aula
Palavras-Chave: Poesia. Marcia Kambeba. Educação Literária. Kuara Uny. Ecovivência.
Resumo: A presente tese de doutorado teve como objetivo investigar como a vivência desocidentalizada com a poesia indígena de Márcia kambeba contribui para um outro modode sentir o ser, o saber, o poder e o com-viver no agir professoral do docente de Língua portuguesa. A ancoragem teórica desta pesquisa fundamenta-se nas seguintes sabedorias: apoio-me em (Mignolo, 2009), (Torres, 2023), (Grosfoguel, 2023), (Walsh, 2017), (Smith,2018), (Costa, 2023) entre outros, que refletem a respeito das epistemologias decoloniais que suleiam abordagens e práticas interculturais e pluri-versais. Em (Graúna, 2013); (Thiél,2018), (Munduruku, 2020), (Krenak, 2022), (Kambeba, 2023), (Werá 2017), (Kopenawa,2015) que apresentam as literaturas indígenas e seus aspectos epistemológicos, cosmológicos para a sociedade não indígena. No campo da poesia ocidental, apoio-me em (Moisés, 2000), (Bosi, 2000), (Paz, 2012) entre outros, discutindo sobre a função da poesia na contemporaneidade. Sobre Educação Literária, parto das reflexões de (Dalvi, 2011) e (Bunzen, 2022) e do Grupo de Estudos em Educação Literária da Universidade Federal de Pernambuco (GPEL-UFPE). No tocante à leitura literária como construção de cultura, identidade e sensibilidade, aparto-me em (Rouxel, 2013) e (Xypas 2023), como para a vivência da poesia em sala de aula com (Pinheiro, 2018) e (Hannou, 2025). Concernente à textualidade kambeba, escolhi como remo literário para esta pesquisa, cinco livros de poesia de Márcia Wayna Kambeba: Ay Kakiry Tama (2019), Saberes Ancestrais (2020), Kumiça Jenó (2021), Saberes da Floresta (2022) e De Águas, Almas e Cunhãs (2023). Imerso na poesia kambeba, criei neologismos e seus conceitos, a saber, oralessência, escutessência que dizem respeito à sensibilidade e diálogo ancestral entre humanos e não-humanos; nat(h)umanizar, refere-se à (re)tomada de consciência de que o humano é natureza, todos advindos das vozes do nós-lírico-ancestral presentes na corpoesia transvocalizada de Márcia Wayna Kambeba. Para ecovivenciar essas obras, bebi da metodologia colaborativa de Liberalli e Magalhães (2009) e da metodologia Kuara Açu (grande caminho) de Márcia Wayna Kambeba (2024). Foi a partir delas que criei um (Per)curso de Formação chamado deMetodologia Kuara Uný (caminho do rio) que (per)correu seis Rodas de Saberes com a participação de Baobá, Ipê e Mangueira, professores de Língua Portuguesa do Ensino Médio da Rede Estadual do Estado de Pernambuco. Essas árvores ecovivenciaram a poesia de Márcia Wayna Kambeba a bordo da canoa da educação literária decolonial durante todo ano letivo de 2025. As nossas remadas consistiram na coelaboração, em ajuri (grupo), de possibilidades de Atividades Didáticas Decoloniais (ADDs) que foram ecovivenciadas em sala de aula, envolvendo duzentos e cinquenta estudantes. Por se tratar de uma pesquisa decolonial que priorizou a oralidade, a memória e a vivência, para materializar em linguagem alfabética, parte do processo, descrevi em meu Diário-Canoa, o que a memória pode guardar apresentando meus pontos de sentidos referentes a cada uma das Rodas de Saberes. Também pedi aos docentes para registrarem em um Diário de Ecos Pedagógicos e em duas entrevistas semiestruturadas, as suas ressonâncias sobre o (Per)curso de Formação Kuara Uny. Esses registros foram analisados e como resultados, contatei que a escutessência, durante a canoagem, nasceu como ação poética-política-pedagógica na ecovivência das Atividades Didáticas Decoloniais e a oralessência das vozes dos humanos e não humanos nas poesias de Márcia Wayna Kambeba deslocou a comunidade leitora do lugar da leitura poemicida para o lugar do encanto pela poesia advinda de uma mediação que se abriu para a escuta. Uma palavra que representa a mudança, a transcendência, a neo-eco-vivência de cada um dos envolvidos é: deslocamento. Esse é o entrelugar de um processo, e assim sendo, não é produdo. Todos nós que canoamos nesse rio-pesquisa, deslocamo-nos para um lugar diferente daquele que iniciamos. Cada uma das árvores, inclusive eu, o pesquisador-formador- que pegou os remos da poesia de Márcia Wayna kambeba e conduziu a canoa da Educação Literária Decolonial chegou a um entrelugar onde as pluralidades das sabedorias ancestrais nos ensinam que há diferentes possibilidades de bem-viver os mundos.