Entre o fragmento, a ironia e a crítica: a reinscrição do Barroco pela forma shandiana em Dom Casmurro
Machado de Assis. Barroco. Dom Casmurro. Forma livre. Literatura brasileira.
A recepção da obra de Machado de Assis atravessou diferentes momentos interpretativos ao longo do tempo. Parte significativa da crítica literária reconhece que, a partir da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1880, consolida-se uma inflexão estética decisiva, caracterizada pela adoção da chamada “forma livre”. Desde então, numerosos estudiosos empenharam-se em compreender de que modo essa reorganização formal poderia expressar o núcleo do projeto literário machadiano. Em diálogo com os trabalhos de Enylton Sá Rego (1989) e Sérgio Paulo Rouanet (2007), defendemos que a forma assumida pelos romances da maturidade machadiana pode ser interpretada como uma reelaboração singular de uma tradição literária específica, denominada por Rouanet (2007) por “forma shandiana”. Tal tradição configura-se como atualização moderna da linhagem luciânica e da sátira menipeia, estudadas por Sá Rego, incorporando procedimentos como a hipertrofia subjetiva do narrador, a digressão estrutural e a articulação entre riso e melancolia. Rouanet sugere ainda que o shandismo comporta uma dimensão moderna de apropriação irônica do Barroco, hipótese formulada a partir de uma breve análise de Brás Cubas. A partir dessa perspectiva, o presente trabalho propõe uma leitura de Dom Casmurro que reconhece, tanto na configuração narrativa quanto na construção das personagens, uma reinscrição irônica da forma barroca. O Barroco é aqui compreendido não apenas como categoria histórico-estilística, mas como estrutura estética e subjetiva marcada pela tensão, pela ambivalência e pela dramatização da interioridade. Metodologicamente, a pesquisa organizou-se em três etapas: (1) revisão da fortuna crítica machadiana, (2) estudo da bibliografia sobre o Barroco e (3) análise do romance. A leitura evidenciou traços barrocos na melancolia e no ceticismo de Bento Santiago, bem como na fragmentação, não-linearidade e no movimento metanarrativo da obra. Tal constatação permite não apenas reafirmar o papel da “forma livre” como espaço privilegiado de verticalização psicológica, mas também reinterpretar a relação entre forma e realidade brasileira, compreendendo-a como mediação estética das tensões históricas que atravessam a inscrição do país na modernidade e os impasses de sua constituição nacional.