DO EXCESSO AO INDISCERNÍVEL: As políticas da superexposição em Chris Kraus
Chris Kraus; superexposição; escrita de si; autoteoria; monstruosidade feminina
Esta tese examina a escrita autobiográfica e experimental de Chris Kraus, centrando-se nas suas três primeiras publicações: Eu amo Dick (1997), Aliens & Anorexia (2000) e Torpor (2006). Propõe-se que a obra de Kraus opera uma subversão sistemática dos limites do ‘eu’, promovendo uma dissolução do sujeito autoral em um campo expandido de alteridades históricas, políticas e afetivas. Para pensar acerca de tal empreendimento, proponho o conceito de superexposição, com o objetivo de descrever o gesto estético-político de expor a experiência pessoal até o ponto de borrar seus contornos, fundindo-se com biografias alheias, referências teóricas, contextos sociais e paisagens culturais. Para tal, o desenvolvimento da pesquisa se utiliza de contribuições da crítica feminista e da filosofia contemporânea, além dos próprios conceitos que Kraus desenvolve em sua escrita autoteorética, como a monstruosidade, a descriação, o hiperespaço e a parataxe. Algumas das referências utilizadas partem de Simone Weil (2019; 2020; 2022), Didi-Huberman (2015a; 2015b; 2018; 2019; 2021); Gilles Deleuze e Félix Guattari (2012a; 2012b; 2015), Luce Irigaray (1985; 2017) e Laura Elkin (2024). Metodologicamente, é adotada uma abordagem cartográfica — inspirada nas contribuições de Deleuze, Guattari e Suely Rolnik (2011) —, que recusa a análise linear em favor do mapeamento de conexões, processos e devires. Após situar as influências da autora — principalmente a partir da Escola de Nova York —, a análise percorre três eixos principais: 1) a monstruosidade feminina como estética do excesso e subversão dos papéis de gênero em Eu amo Dick; 2) a descriação e o hiperespaço como tecnologias de desfazimento do eu em Aliens & Anorexia; e 3) a narrativa paratática e a temporalidade em Torpor. Finalmente, é concluído que a escrita krausiana não visa à expressão de um self, mas sua desaparição via superexposição, gerando uma forma de intersubjetividade literária na qual o pessoal se torna indiscernível do coletivo. A pesquisa contribui para os estudos sobre autobiografia, autoteoria, escrita de mulheres e literatura contemporânea, propondo um modelo crítico que enfatiza a porosidade entre vida, arte e teoria.