ARGUMENTAÇÃO EMOCIONADA EM FAKE NEWS: a construção de pontos de vista sobre o conflito israelo-palestino
Argumentação. Emoção. Ponto de vista. Fake news. Conflito israelo-palestino.
O interesse por estudar a argumentatividade nos textos não se revela algo recente no âmbito da Linguística Textual, com destaque para a vertente brasileira, na qual o presente trabalho se insere. Nos anos 80, Koch (1984) já apontava como marcas linguísticas são mobilizadas, a partir de certas intenções, por sujeitos perpassados por questões sociais, históricas e ideológicas. Nas últimas décadas, essa compreensão tem sido aprofundada, na relação com a Retórica, a Análise do Discurso e as teorias da enunciação, defendendo-se não ser preciso haver argumentos formais, sequências argumentativas ou confrontos explícitos para existir argumentação, sendo assumida uma dimensão argumentativa (Amossy, 2020) ou uma argumentação indireta (Rabatel, 2016) em textos diversos. Seguindo esse viés teórico, a argumentação é então compreendida em um continuum de modos de inscrição da subjetividade, o qual ultrapassa o aparelho formal da enunciação e evidencia a maneira como os sujeitos apreendem o mundo e o (re)constroem em seus dizeres, indicando pontos de vista e funcionando como mecanismo para orientar os modos como os outros vêem, pensam e sentem. Nesse processo, conforme Pinto e Cortez (2017), um locutor não apenas revela seus pontos de vista e imputa pontos de vista (doravante PDV) ao outro, mas também representa emoções autocentradas e heterocentradas, com a intenção de construir uma orientação argumentativa emocionalmente direcionada. No contexto digital, defendemos a hipótese de que a mobilização do sensível, a fim de influenciar o julgamento do interlocutor, também se mostra uma estratégia profícua de persuasão, sendo mister compreender como essa estratégia se atrela à prática linguageira da fake news. Isso posto, o objetivo central deste trabalho é, a partir da representação de PDV, analisar os modos de semiotização das emoções na construção da argumentação em fake news sobre o conflito israelo-palestino. Figuram como objetivos específicos, portanto: i) analisar o gerenciamento de enunciadores e a mobilização de pontos de vista; ii) identificar as marcas semiolinguísticas empregadas na representação dos PDV assumidos e imputados; iii) investigar os modos de semiotização das emoções auto e heterocentradas; iv) compreender a importância da construção textual-discursiva das emoções para a argumentação nas fake news. Como base teórica, recorremos a Rabatel (2003, 2004, 2009, 2013a, 2013b, 2016, 2017, 2024a, 2024b), Cortez (2011, 2013, 2017, 2018), Cortez e Catelão (2022), Pinto e Cortez (2017) e Micheli, Hekmat e Rabatel (2013), para discutir a Teoria pragma-enunciativa e discursiva do ponto de vista e o lugar do sensível na argumentação, e a Tandoc Jr., Lim e Ling (2017), Tandoc Jr. (2021), Wardle (2020), Recuero e Gruzd (2019), Recuero e Soares (2021), Santaella (2020, 2025), Figueira e Santos (2019) e Demuru (2024), a fim de compreender o fenômeno mais amplos da desinformação e a prática linguageira da fake news. Para alcançar nossos objetivos, desenvolvemos uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter descritivo e explicativo, com base nos procedimentos técnicos de uma pesquisa documental. A fim de construir o corpus, realizamos um recorte temático e temporal, selecionando exemplares de mensagens instantâneas que incorporam fake news sobre o conflito israelo-palestino, veiculadas entre outubro e dezembro de 2023. Nesta dissertação, analisamos 10 mensagens instantâneas, as quais circularam em um grupo de extrema direita no aplicativo Telegram, intitulado @OsPatriotasBR. Por meio das análises, constatamos que os locutores/enunciadores primeiros buscam persuadir o auditório, ao mobilizarem um alto teor emocional na construção de pontos de vista sobre o conflito. Com isso, pretendem estabelecer um consenso, silenciando questões negativas sobre o enunciador consonante, o estado de Israel – seus apoiadores ou simpatizantes e, por vezes, o próprio povo judeu – e desenvolvendo um ponto de vista negativo sobre o enunciador adversário, o Hamas – em vários momentos, a Palestina, o seu povo e os mulçumanos em geral.