MULHERES ENCLAUSURADAS:
Recolhimento Santíssimo Coração de Jesus, vila de Igarassu-PE (1850-1887).
Reclusão feminina; Religiosidade; Claustro; Sociedade.
Fundado em 1742, na vila de Igarassu (Pernambuco), pelo padre Miguel Rodrigues Sepúlveda e pelo missionário jesuíta Gabriel Malagrida, o Recolhimento do Santíssimo Coração de Jesus destinava-se a acolher mulheres que desejavam consagrar-se à vida religiosa e aquelas cuja honra estivesse em risco, como órfãs, viúvas, donzelas e prostitutas convertidas. Desde sua origem, configurou-se como uma instituição de perfil híbrido, uma espécie de “casa religiosa leiga” organizada à maneira dos conventos europeus. Na segunda metade do século XIX, o Recolhimento passou por importantes reformas estruturais e administrativas — entre elas, a criação de uma escola de primeiras letras e música vocal, a ampliação dos espaços internos e a sistematização dos registros burocráticos. Nesse período, a visita do frei Caetano de Messina contribuiu para a revitalização do prédio, enquanto a visita do imperador Dom Pedro II reforçou sua projeção social e simbólica na região. Essas mudanças ampliaram o papel educacional e cultural da casa, alterando seu perfil inicial. Com base em fontes do Arquivo das Religiosas do Sagrado Coração de Jesus, é possível afirmar que, a partir de 1850, o Recolhimento acolheu mulheres de diferentes condições sociais, entre elas donzelas, órfãs brancas e mestiças, viúvas, mulheres com maridos ausentes, servas e escravizadas. Considerando essa diversidade, este trabalho analisa seus modos de vida, práticas devocionais, atividades administrativas e econômicas, bem como as relações de poder e a hierarquia social que atravessaram o funcionamento e a evolução da instituição.