A Chanoyu como obra de arte: uma perspectiva heideggeriana
obra de arte, fenomenologia, Heidegger, arte japonesa, Cerimônia do Chá
Em um cenário contemporâneo em que a arte é tensionada pelas dinâmicas de produção e pelos imperativos da técnica, certas práticas se apresentam como um refúgio frente a tais enquadramentos. A cerimônia do chá japonesa é uma delas: em sua simplicidade, nos gestos mínimos, no silêncio, nos utensílios e no ambiente cuidadosamente disposto, emerge um acontecimento que desafia as categorias estéticas ocidentais. É nesse horizonte que esta pesquisa investiga em que medida a chanoyu pode ser interpretado fenomenologicamente a partir do pensamento de Martin Heidegger sobre a arte, entendida como o acontecimento da verdade, tomando como eixo a noção de obra de arte formulado em A origem da obra de arte. A análise parte do movimento de superação da metafísica no pensamento heideggeriano e de como essa inflexão abre espaço para o diálogo com tradições orientais, especialmente no âmbito da arte, permitindo considerar a chanoyu como o acontecimento da verdade. Nesse percurso, examinam-se as determinações heideggerianas sobre o caráter instaurador da arte, a peleja de mundo e terra e a relação entre “esteta”, artista e arte. A pesquisa desenvolve-se por meio de abordagem fenomenológico-hermenêutica, articulando a leitura dos textos de Heidegger com obras acerca da cerimônia, em especial O livro do chá de Kakuzo Okakura, para construir o solo conceitual necessário a uma interpretação da chanoyu enquanto acontecimento artístico que se insere no diálogo entre Heidegger e a arte japonesa. Assim, busca-se compreender essa prática não como mera ilustração de uma teoria filosófica, mas como um campo de encontro no qual arte e pensamento podem iluminar-se mutuamente.