SOBRE AS DIFERENTES RELAÇÕES ENTRE PSICOLOGIA E FENOMENOLOGIA NO PENSAMENTO DE E. HUSSERL
Psicologismo; Fenomenologia; Husserl; Psicologia fenomenológica; Redução transcendental
Nesta dissertação, visamos examinar as diferentes relações entre psicologia e fenomenologia em momentos-chave do pensamento de Edmund Husserl. Para atingir tal meta, tomamos como fio condutor, no primeiro capítulo, a análise do confronto contra o psicologismo lógico, tal como exposto nos Prolegômenos à Lógica Pura (1900). Nesse texto, Husserl se propõe a refutar as teses psicologistas que, segundo o autor, resultavam na redução das leis lógicas às leis psicológicas e, por consequência, ter-se-ia um relativismo cético, autocontraditório frente ao caráter apodítico das leis puramente lógicas. Destacamos, também, que a crítica husserliana nos Prolegômenos e no decorrer de todo o seu pensamento, não se dirige à psicologia como disciplina, mas às teses reducionistas que a sustentam. No segundo capítulo, acompanhamos a transformação dessa relação após a virada transcendental da fenomenologia, explicitando o confronto com a psicologia de abordagem científico-natural, tal como examinada por Husserl em Filosofia Como Ciência de Rigor (1911). Depois, analisamos tanto a transformação da fenomenologia em ciência eidética e transcendental, quanto a via cartesiana, tal como exposto nos textos A Ideia da Fenomenologia (1907) e Ideias I (1913). Por fim, à luz da divisão entre ontologias formal e material, tratamos de examinar a habilitação da psicologia como ciência eidética, dissipada dos mal-entendidos naturalistas, e o seu desenvolvimento como via de acesso à redução transcendental tal como consta nos escritos de Filosofia Primeira II (1923-1924), nas lições de Psicologia Fenomenológica (1925) e no Artigo da Enciclopédia Britânica (1927), no qual Husserl situa Locke como o primeiro psicologista transcendental. Dialogamos, ao longo do trabalho, com diversos filósofos que investigaram diretamente os temas aqui tratados, como Moura (1989), Kusch (1995), Moran (2005, 2008), Kern (1997), Rocha (2018), Sacrini (2018), Curvello (2018), Tourinho (2014), Porta (2013), Davidson (2021), entre outros. Pretendemos, no final, delimitar a compreensão desse duplo movimento fenomenológico – do seu desenvolvimento como ciência transcendental e de elaboração de uma psicologia eidética, como ontologia material, em chave fenomenológica – esclarecendo, assim, o lugar que a psicologia ocupa no interior do projeto fenomenológico husserliano.