EFEITOS DA ESTIMULAÇÃO TRANSCRANIANA POR CORRENTE CONTÍNUA ASSOCIADA AO TREINO COGNITIVO DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS EM ADOLESCENTES COM DIABETES MELLITUS TIPO 1
diabetes mellitus tipo 1; adolescentes; funções executivas; estimulação transcraniana por corrente contínua; treino cognitivo.
Adolescentes com diabetes mellitus tipo 1 (DM1) frequentemente apresentam dificuldades de adesão ao tratamento, com repercussões no controle glicêmico. Parte dessas dificuldades decorre da complexidade do autocuidado, que exige autogestão comportamental contínua (monitorização glicêmica, administração de insulina e manejo das demandas alimentares e de intercorrências). A baixa adesão e o controle glicêmico inadequado, ocasionando variabilidade glicêmica elevada, são associados a repercussões deletérias sobre o sistema nervoso central, em níveis estrutural e funcional, com particular envolvimento de circuitos pré-frontais. Nesse contexto, a literatura encontra déficits neurocognitivos nessa população, com destaque para comprometimentos nas funções executivas (FE). As FE, especialmente memória de trabalho (MT) e controle inibitório (CI), são recursos centrais para manter metas ativas, inibir respostas imediatas e sustentar rotinas de autocuidado. Diante dessa problemática, a presente tese estabeleceu como objetivo avaliar os efeitos da estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC), ativa e simulada, associada a intervenção cognitiva sobre FE (MT e CI), adesão ao tratamento e controle glicêmico em adolescentes com DM1. Para tanto, foram desenvolvidos três artigos. No Artigo 1, objetivou-se investigar se a ETCC associada ao treino cognitivo melhora FE em comparação com a ETCC simulada com o mesmo treino em crianças e adolescentes. Realizou-se revisão sistemática registrada no PROSPERO, incluindo ensaios clínicos randomizados, com avaliação do risco de viés e da certeza da evidência. Em geral, a evidência foi limitada e heterogênea, não sustentando superioridade consistente da ETCC ativa para melhora de FE, embora o perfil de tolerabilidade tenha sido aceitável, sem eventos graves atribuídos à intervenção. O Artigo 2 objetivou investigar, em adolescentes com DM1, associações entre FE (MT, CI e autorregulação executiva), adesão e controle glicêmico, bem como efeitos da idade ao diagnóstico. Conduziu-se estudo transversal com 24 adolescentes (13 a 16 anos), com avaliação das FE por tarefas de desempenho e heterorrelato. Observou-se associação entre melhor desempenho em CI (tarefa de desempenho) e melhor controle glicêmico. As demais associações não foram significativas. No Artigo 3, objetivou-se investigar os efeitos da ETCC associada ao treino cognitivo sobre FE, adesão, controle glicêmico e sintomas emocionais (depressão, ansiedade e estresse) em adolescentes com DM1, no pós-teste e follow-up. Realizou-se ensaio clínico randomizado, simples-cego, com três avaliações (pré, pós e follow-up de três meses), comparando ETCC ativa versus simulada (1,5 mA e 20 min) associadas ao mesmo treino cognitivo, em cinco sessões diárias e consecutivas, com 24 adolescentes, 12 (ETCC ativa) e 12 (ETCC simulada). Os achados sugeriram benefícios robustos em MT visuoespacial no grupo ativo, com efeitos mais modestos em MT verbal e CI, além de ausência de impacto diferencial sobre adesão e controle glicêmico no follow-up. Adicionalmente, melhor desempenho basal em MT verbal associou-se a melhor controle glicêmico no seguimento e observaram-se melhorias em sintomas emocionais no pós no grupo ativo. Em síntese, as FE são clinicamente relevantes para a autogestão do DM1 e a ETCC com treino cognitivo mostrou-se viável e tolerada, com potencial benefício em desfechos cognitivos e emocionais, embora a generalização clínica possa exigir intervenções integradas.