A AUTOCONSCIÊNCIA FENOMENAL DE USUÁRIOS DE CRACK DA REGIÃO CRAJUBAR CEARENSE: ESTUDO FENOMENAL
Autoconsciência Fenomenal; Experiência Interna; Crack; Adicção; Entrevista Fenomenológico-Cognitiva dos Estados Autoconscientes – EFEA.
O crack, um tipo de substância psicoativa, é considerada um grave e complexo problema de
saúde pública, tornando-se pauta de diversas discussões e fonte de produção de conhecimento
visando amenizar os efeitos e danos causados não só ao usuário e familiares, mas a toda
sociedade, apesar de ser uma problemática emergente, não há estudos na literatura cientifica
que se proponham compreender a autoconsciência fenomenal neste publico. A autoconsciência
fenomenal refere-se a um estado qualitativo de autoexperiência que se manifesta quando a
atenção é dirigida ao próprio eu e o processamento cognitivo se organiza em chave
autorreferencial. A definição contempla simultaneamente a dimensão funcional da atenção e a
dimensão experiencial, marcada pela tonalidade subjetiva da vivência. Dito isto, este projeto
tem como objetivo geral: compreender a operacionalização da autoconsciência fenomenal em
usuários de crack na região CraJuBar. Objetivos específicos: (i) caracterizar aspectos
sociodemográficos, econômicos e histórico clínico; (ii) investigar os componentes estruturais
da autoconsciência fenomenal; (iii) descrever a fenomenalidade da autofocalização, em seu
aspecto estrutural, em participantes com pouco, médio e longo tempo de uso. Este estudo se
caracteriza como um estudo de casos múltiplos de caráter idiográfico, qualitativo e fenomenal,
como instrumento foi utilizado um questionário sociodemográfico e historial clinico de
elaboração própria, bem como a Entrevista Fenomenológico-Cognitiva dos Estados
Autoconscientes – EFEA. A análise dos dados foi realizada a partir do método de Análise
Fenomenal Temática Narrativa (AFTN) tendo como finalidade traduzir, em primeira pessoa, os
estados qualitativos da autoconsciência, organizando-os segundo o fluxo das experiências
fenomenais de forma estrutural. Foi respeitado todas as recomendações ética da resolução
510/2016 do CNS, bem como a pesquisa foi aprovada pelo comite de ética e pesquisa (CAAE:
86977225.6.0000.5208). Participaram três pessoas alfabetizadas (31, 34 e 51 anos), usuárias de
crack nos últimos 30 dias, em tratamento em um CAPS AD e duas Comunidades Terapêuticas
das cidades de Barbalha, Crato e Juazeiro do Norte, com 3, 14 e 30 anos de uso,
respectivamente. Os resultados obetidos na pesquisa resultaram em sete categorias fenomenais:
visualização interna, fala interna, sentimentos, autofoco fenomenal, consciência sensorial,
viagem mental no tempo e significação. Evidenciou-se convergência dos perfis
sociodemográficos e clínicos com a literatura nacional sobre usuários de crack, reforçando a
validade externa dos achados. A autoconsciência fenomenal mostrou um núcleo estrutural
recorrente, visualização interna, fala interna, afetividade e marcadores sensório-atencionais, em
paralelo ao que estudos prévios descrevem, sustentando a validade ecológica e a portabilidade
do protocolo EFEA. Na comparação por tempo de uso, casos de longo curso exibem núcleo
vívido porém menos integrado; os de curso médio apresentam integração parcial com acréscimo
de consciência sensória e autofoco fenomenal; e os de curto curso revelam o padrão mais
integrado, articulando viagem mental no tempo e significação. Em conjunto, os resultados
sugerem invariantes fenomenais do processo autoconsciente e sugerem que a cronicidade do
uso pode reduzir a integração estrutural do autofoco.