APEGO E TOMADA DE DECISÃO MORAL: um estudo com crianças e adolescentes em dilemas sacrificiais envolvendo a figura materna
Apego. Modelos Operativos Internos. Tomada de Decisão Moral. Dilemas de sacrifício. Díade mãe-filho. Adolescência.
O presente estudo objetivou investigar de que forma os Padrões de Apego de crianças e adolescentes organizam a Tomada de Decisão Moral em dilemas de sacrifícios nos quais a figura materna, o próprio participante e pessoas desconhecidas ocupam a posição de vítima possível. O Apego diz respeito ao vínculo afetivo construído pela criança a partir dos primeiros cuidados recebidos de sua figura de segurança, do qual derivam os Modelos Operativos Internos, representações de si e do outro que orientam as expectativas quanto à disponibilidade dessa figura em situações de necessidade. De acordo com a literatura, a pesquisa sobre dilemas sacrificiais tem sido conduzida, principalmente, com vítimas desprovidas de história relacional com o respondente, o que motivou a construção de um instrumento de doze dilemas, no qual o cenário clássico do bonde foi adotado como estrutura-base e deu origem às onze variantes subsequentes através da manipulação sistemática da identidade de quem ocupa cada trilho – pessoas desconhecidas, a figura materna ou o próprio participante – e da quantidade de pessoas em risco, de modo a distinguir o efeito do vínculo do efeito do número de vidas em jogo. A amostra foi composta por 212 crianças e adolescentes de 11 a 16 anos (M = 12,95; DP = 1,35), matriculados em escolas públicas e residentes com a mãe, identificada como cuidadora principal. Foram utilizados os seguintes instrumentos: a) os doze dilemas, respondidos em duas perspectivas, a decisão própria e a atribuída à mãe, dos quais resultaram vinte e quatro respostas por participante; b) o Separation Anxiety Test (SAT), para classificação do Padrão de Apego; c) cinco escalas de disposições individuais, a saber, empatia, traços de insensibilidade emocional, autoestima, consciência emocional e percepção de suporte familiar; e d) entrevistas semiestruturadas com participantes dos padrões inseguros. Os resultados evidenciaram que a) a proteção da figura materna é elevada e invariante entre os 11 e os 16 anos, e apenas 5,2% dos participantes responderam de modo idêntico nas duas perspectivas, restando uma assimetria pequena na qual o filho representa-se como o membro mais devotado da díade; e b) a reciprocidade representada constitui propriedade do Apego seguro, e a insegurança manifesta-se não como quantidade, mas como forma, visto que o padrão ambivalente mantém elevada a oferta e reduz a expectativa de cuidado materno, enquanto o evitante recua nas duas direções e concentra os raros casos de autopreservação diante da mãe, com 32,5% dos evitantes, contra 1,7% dos seguros. Verificou-se ainda que c) o bloco de Apego reteve de 6,9 a 22,9 pontos percentuais de variância única após o controle de idade, sexo, suporte familiar e disposições individuais, que acrescentaram variância única em uma única medida; d) a Análise da Estrutura de Similaridade revelou que o objeto da devoção divide o espaço em três setores, nos quais os vinte e quatro atos se alocaram conforme o previsto, e que os padrões seguro e evitante ocuparam setores opostos, a ambivalência desloca as respostas sem que posição alguma do plano a represente; e e) as justificativas verbalizadas nas entrevistas mostraram-se organizadas pela história de cuidado, de tal modo que o padrão evitante apareceu associado a distanciamento afetivo, supressão emocional e autossuficiência defensiva, e o ambivalente, à dúvida quanto a ser querido pela mãe. Conclui-se que o dilema de sacrifício, quando a vítima possível é a figura de vinculação, funciona como via indireta de acesso aos Modelos Operativos Internos, e que o Apego e as disposições individuais operam em níveis distintos de descrição, pois o primeiro define quais configurações de cuidado são possíveis para o sujeito, e as segundas apenas ajustam parâmetros no interior dessa configuração.