COMO É A HISTÓRIA DE UMA MENINA BRANCA? Sentidos produzidos por adolescentes do ensino fundamental
Branquitude. Adolescência. Psicologia histórico-cultural. Núcleos de significação. Relações étnico-raciais.
Esta dissertação investigou as produções de sentido sobre o "ser branca" em adolescentes dos anos finais do Ensino Fundamental de uma escola privada na Região Metropolitana do Recife. O percurso partiu do pressuposto de que a branquitude se constitui como uma posição de privilégio sistêmico, mantida por dinâmicas históricas de dominação racial. Ancorada nos referenciais da Psicologia Histórico-Cultural e dos Estudos Críticos da Branquitude, a pesquisa analisou como a apreensão conceitual do racismo e do privilégio repercute na formação
consciente e na práxis das participantes. A metodologia adotada foi qualitativa, mediante o estudo de casos múltiplos com duas adolescentes autodeclaradas brancas, denominadas Amanda e Letícia (nomes fictícios). A construção dos dados ocorreu por meio de questionário sociodemográfico, entrevista biográfica semiestruturada, observação e entrevista narrativa mediada por situação-problema e recurso visual gerado por inteligência artificial. Os dados foram gravados, transcritos e interpretados à luz dos núcleos de significação, método formulado por Aguiar e Ozella (2006) que busca apreender os sentidos subjacentes às narrativas. Os
resultados evidenciaram que as adolescentes possuem plena capacidade cognitiva de identificar o racismo estrutural e as vantagens estéticas e materiais decorrentes do corpo branco. Contudo, revelou-se uma fratura entre a apropriação conceitual do discurso antirracista e a ação interpessoal cotidiana. Em Amanda, a socialização pautada no silêncio familiar manteve o antirracismo resguardado no plano abstrato, preservando sua zona de conforto. Em Letícia, a Educação para as Relações Étnico-Raciais promovida pela escola gerou uma ruptura com o aprendizado familiar supremacista, deflagrando conflitos psíquicos e posturas defensivas, tais
como a equiparação de suas dores a dores de pessoas negras e o recuo motivado pelo "lugar de fala". Conclui-se que os entraves à práxis antirracista não decorrem de limitações cognitivas, mas de resistências afetivas.