A RELAÇÃO ENTRE EMOÇÃO E ARGUMENTAÇÃO EM CONTEXTO EDUCACIONAL DE DEBATE ENTRE UNIVERSITÁRIOS
Discurso argumentativo; emoção no discurso; tonalidades emocionais; questões sociocientíficas; aprendizagem.
A crescente centralidade da argumentação em pesquisas empíricas fundamenta-se em sua relevância para a participação eficaz em sociedades democráticas, em seu caráter inerente ao campo científico e em sua relação com avanços nas teorias da aprendizagem e do desenvolvimento. Tradicionalmente, a argumentação foi examinada sob o prisma da racionalidade, com foco em pré-requisitos cognitivos e apoios estruturais. Contudo, investigações contemporâneas têm se voltado para as dimensões social, interpessoal e afetiva, examinando como esses fatores favorecem ou inibem a argumentação. Nesse cenário, esta tese investiga as relações entre emoção e argumentação em contexto educacional de debate entre universitários. O objetivo geral foi investigar como a emoção e a argumentação se articulam no funcionamento discursivo do debate, desdobrando-se em quatro objetivos específicos: (i) operacionalizar um modelo de análise de tonalidades emocionais no discurso; (ii) caracterizar a manifestação da argumentação nos debates; (iii) caracterizar o funcionamento da emoção no discurso argumentativo; e (iv) analisar as inter-relações entre ambas, identificando padrões de estabilidade e reconfigurações no comparativo pré/pós-intervenção formativa. A metodologia qualitativa envolveu dois debates virtuais sobre temas sociocientíficos controversos (descriminalização do aborto e pena de morte), realizados antes e após uma intervenção formativa (Curso de argumentação). Cada debate foi composto por um quarteto de universitários, organizado em duas duplas com papéis dialógicos pró e contra o tema em debate. A análise foi estruturada em três níveis (transcrição, microanálise e macroanálise), utilizando, para a dimensão argumentativa, a tríade analítica argumento, contra-argumento e resposta, e, para a dimensão emocional, uma modelagem discursiva de tonalidades (valência e intensidade). Os resultados indicam quatro padrões de estabilidade entre os debates: predomínio de regulação tensional (intensidade média como padrão e intensidade alta como ocorrência minoritária); valência negativa como enquadramento funcional em controvérsias moralmente densas; alta intensidade e normatividade circunscritas a contra-argumentos críticos; e ambivalência como manifestação pontual. Na análise comparativa entre os debates pré e pós-intervenção formativa, observaram-se cinco reconfigurações principais na dinâmica discursiva do pós-intervenção: acentuação do enquadramento disfórico e retração da valência positiva; reorganização do perfil de tonalidade (disforia concentrada e intensidade alta mais visível); reorganização dos movimentos argumentativos (expansão de argumentos, seletividade da contra-argumentação e maior participação das respostas); reconfiguração da contra-argumentação (oposição mais concentrada em contra-argumentos críticos sobre as razões); e reconfiguração das respostas (exclusivamente disfóricas e aumento de revisões explícitas). Em síntese, a pesquisa sustenta que emoção e argumentação se articulam funcionalmente no debate, de modo que a tonalidade emocional não apenas acompanha os movimentos argumentativos, mas participa do enquadramento avaliativo do objeto de discurso e do processamento da oposição. Conclui-se que a deliberação sobre controvérsias pode ser simultaneamente crítica e emocionalmente regulada, oferecendo subsídios para o desenho de práticas argumentativas formativas que integrem a densidade ética e afetiva inerente aos processos de aprendizagem.