EFEITOS DA ADIÇÃO DE MICROPLÁSTICOS SOBRE O GRAZING E A SELETIVIDADE ALIMENTAR DO PLÂNCTON EM ÁGUAS COSTEIRAS TROPICAIS
zooplâncton; espectros de tamanho; FlowCam; ecologia trófica
O aumento da contaminação por microplásticos nos oceanos representa uma das principais pressões antrópicas sobre os ecossistemas marinhos, com potencial para interferir em processos ecológicos fundamentais, incluindo a dinâmica trófica do plâncton. Este estudo investigou os efeitos da presença de microplásticos sobre as taxas de pastejo e os padrões de seletividade alimentar do mesozooplâncton em águas costeiras tropicais, por meio de experimentos de incubação in situ realizados na Baía de Tamandaré, litoral sul de Pernambuco, Brasil. O delineamento experimental foi composto por quatro tratamentos com quatro réplicas cada: condição inicial (T₀), controle (água filtrada em 200 μm), zooplâncton e zooplâncton associado a microplásticos de poliestireno (100–300 μm, ~0,85 mg L⁻¹), obtidos por fragmentação criogênica. As incubações foram realizadas in situ durante cinco horas sob condições ambientais naturais, em superfície. Este estudo utilizou pela primeira vez análises de espectros de tamanho baseadas em FlowCam, para investigar os efeitos dos microplásticos (MPs) nas interações entre zooplâncton e fitoplâncton costeiro tropical. As taxas de pastejo, filtração e ingestão foram estimadas pelo modelo de Frost (1972) e a seletividade alimentar foi avaliada pelos índices de preferência de Manly e de eletividade de Chesson. A abundância de fitoplâncton diferiu significativamente entre os tratamentos, tendo os controles apresentado os valores mais elevados (média: ~ 27.000 partículas ml⁻¹). Observou-se pastagem significativa pelo mesozooplâncton. As inclinações dos espectros de tamanho do nanoplâncton foram menos íngremes (-1,9 a -1,6, em unidades de log-abundância vs. log-tamanho ESD) do que as do microplâncton (-4,8 a -3,8). Os espectros do nanoplâncton (ESD < 20 μm) apresentaram-se significativamente mais achatados nos tratamentos com mesozooplâncton. O mesozooplâncton, através da sua atividade alimentar, reduziu a abundância de nanoplâncton, achatando o espectro e diminuindo a quantidade de nanoplâncton. A adição de microplásticos levou a um aumento significativo do tamanho mediano do fitoplâncton (indicando uma forte remoção de partículas pequenas pelos MPs) e uma redução significativa das densidades de partículas em três classes de tamanho (13.8, 17.8, e 25.8 μm ESD), indicando que MPs têm o potencial de alterar a estrutura de tamanhos do ecossistema pelágico. Os nossos resultados reforçam a importância de avaliar os efeitos dos microplásticos na teia alimentar planctônica não só através da sua ingestão, mas também pelo seu impacto na dinâmica das partículas em suspensão.