Avaliacao da frequencia de sarcopenia e associacao com manifestacoes clinicas, capacidade funcional, fadiga e qualidade de vida em pacientes com esclerose sistemica: estudo transversal em um centro de referencia
Esclerodermia; sarcopenia; incapacidade
A esclerose sistêmica (ES) é uma doença autoimune rara e multissistêmica do tecido conjuntivo, caracterizada por fibrose cutânea e visceral, vasculopatia e disfunção imunológica, associada à alta morbimortalidade e impacto funcional. Entre suas manifestações clínicas, destaca-se o comprometimento muscular, frequentemente decorrente de inflamação crônica, desnutrição, inatividade física e efeitos adversos de fármacos, condições que favorecem o desenvolvimento da sarcopenia. Estudos prévios apontam prevalência variável de sarcopenia na ES, entre 15% e 53%, mas dados brasileiros são escassos. Assim, o presente estudo teve como objetivo avaliar a frequência de sarcopenia e sua associação com manifestações clínicas, incapacidade, fadiga e qualidade de vida em pacientes com ES. Trata-se de um estudo transversal, realizado no Ambulatório de Reumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, entre agosto de 2024 e julho de 2025, com diagnóstico de ES segundo os critérios ACR/EULAR 2013. A sarcopenia foi definida e classificada em provável, definida e grave conforme os critérios do EWGSOP2. A força muscular foi avaliada através da força de preensão palmar (FPP), a massa muscular através da densitometria corporal total (DEXA) e a função muscular pelo Short Physical Performance Battery (SPPB). Foram avaliadas ainda as características demográficas e clínicas, tratamento, incapacidade (SHAQ), fadiga (FSS) e qualidade de vida (SF-12) e essas variáveis foram comparadas entre pacientes com e sem sarcopenia. Também foram avaliadas correlações entre as variáveis relacionadas à definição da sarcopenia e aspectos clínicos da doença. Foram avaliadas 36 pacientes, todas do sexo feminino, com média de idade de 50,5 (±8,9) anos e mediana de tempo de diagnóstico de 8 (5-17) anos. A frequência de sarcopenia provável, definida e grave foi de 41,7%, 27,8% e 22,2%, respectivamente. Pacientes com sarcopenia definida apresentaram maior tempo de diagnóstico (p=0,03) e menor índice de massa corporal (p=0,02), sem diferenças significativas com relação a manifestações clínicas e uso de medicamentos, quando comparados a pacientes sem sarcopenia. Também não houve diferenças com relação a incapacidade, fadiga e qualidade de vida entre os dois grupos. A FPP correlacionou-se negativamente com fadiga (r=-0,43; p=0,01) e incapacidade (r=-0,46; p=0,005). O SPPB correlacionou-se negativamente com FSS (r=-0,50; p=0,002) e SHAQ (r=-0,46; p=0,005), além de positivamente com a componente físico do SF-12 (r=0,37; p=0,02). A massa muscular apresentou correlação negativa apenas com idade (r=-0,48; p=0,003) e tempo de doença (r=-0,37; p=0,03). Conclui-se que a sarcopenia é uma condição frequente em pacientes com ES e está associada a maior tempo de doença e menor IMC. Não foram detectadas diferenças com relação a manifestações clínicas, fadiga, incapacidade e qualidade de vida entre pacientes com ou sem sarcopenia. A função muscular demonstrou correlação com incapacidade, fadiga e qualidade de vida, reforçando a importância da avaliação funcional no rastreamento e no manejo clínico dessa população.