Produção e jogos de sentidos sobre gênero e sexualidade por pessoas LGBT+ em plataformas interativas de transmissão ao vivo
Transmissão ao vivo; gênero; sexualidade; plataformas digitais; produção de sentidos.
Esta dissertação tem como objetivo geral analisar a produção e os jogos de sentidos sobre gênero e sexualidade por usuários LGBT+ em plataformas interativas de transmissão online. Partimos do reconhecimento de que essas plataformas digitais operam simultaneamente como espaços de entretenimento, sociabilidade e disputa simbólica, nos quais se produzem pertencimentos, afetos e formas de resistência, mas também se reproduzem desigualdades e violências atravessadas por normas cisheteronormativas. O estudo está ancorado na psicologia social crítica, com ênfase no construcionismo social, articulado aos estudos feministas e queer e a uma perspectiva epistemológica situada, que considera a implicação do pesquisador como parte constitutiva do processo investigativo e discute aspectos éticos relacionados à produção de conhecimento. O estudo adota abordagem qualitativa e exploratória, a partir de entrevistas semiestruturadas realizadas com 11 usuários/as da
Plataforma Twitch, dos/as quais seis são criadores/as de conteúdo e os/as demais (cinco) são apenas expectadores/as. As entrevistas foram transcritas integralmente e analisadas com base na identificação de nomeações, repertórios discursivos, vozes e incidentes críticos, evidenciando a trama de sentidos que se constitui na coprodução das interações. O exercício analítico resultou em três eixos: 1) repertórios sobre gênero e sexualidade; 2) pertencimento, afeto e sociabilidade; e 3) resistência e enfrentamentos na Twitch. Os resultados indicam que, apesar das limitações impostas pelas dinâmicas algorítmicas e pelas lógicas do capitalismo de plataforma, usuários LGBT+ mobilizam práticas discursivas e performances que afirmam identidades, constroem redes de cuidado e tensionam padrões hegemônicos. Por outro lado, os entrevistados/as narram ataques organizados, violências simbólicas e mecanismos de exclusão que incidem de maneira desigual sobre corpos dissidentes, exigindo estratégias permanentes de moderação, autoproteção e ação coletiva. As análises mostram ainda que essas práticas configuram formas de resistência que se expressam na afirmação identitária, na reconfiguração de normas de convivência e na consolidação de espaços de cuidado coletivo. Conclui-se que a Twitch se configura como um território contraditório, no qual convivem exclusão e possibilidade, operando como espaço relevante para a compreensão contemporânea das relações entre subjetividade, tecnologia e diversidade sexual e de gênero.