FELINOS SILVESTRES EM ÁREAS DE CAATINGA: ECOLOGIA, SAÚDE E CONFLITOS.
Coexistência. Conservação. Gato-mourisco. Herpailurus yagouaroundi. Jaguatirica. Leopardus pardalis. Gato-do-mato-pequeno. Leopardus tigrinus.
Os felinos silvestres desempenham papéis ecológicos fundamentais como predadores de topo e mesopredadores, influenciando diretamente a estrutura e a dinâmica dos ecossistemas. Na Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro e historicamente subamostrado, o conhecimento sobre a ecologia, a saúde e as interações socioambientais envolvendo felinos ainda é limitado, especialmente em paisagens submetidas a intensa pressão antrópica. O presente estudo teve como objetivo elucidar padrões ecológicos, aspectos de saúde e conflitos associados a felinos silvestres em uma área de Caatinga no estado de Alagoas, Nordeste do Brasil, abrangendo o complexo da Serra da Taborja e Morro do Pilão, incluindo áreas protegidas por Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e áreas não protegidas. Foram utilizadas abordagens integradas, incluindo armadilhamento fotográfico, análise espacial e temporal de registros, entrevistas semiestruturadas com a população local e análise macroscópica e microscópica de amostras fecais. Foram registradas as espécies Leopardus pardalis, Leopardus tigrinus e Herpailurus yagouaroundi, com padrões distintos de uso do espaço, atividade e associação a áreas protegidas e não protegidas. A frequência de registros foi influenciada por fatores ambientais, horários e pelo status de proteção dos pontos amostrados, indicando segregação espacial entre espécies, mas ausência de segregação por sexo. As entrevistas revelaram percepções ambíguas da população local, variando entre reconhecimento ecológico da importância dos felinos e sentimentos de medo, conflitos associados à predação de animais domésticos e riscos sanitários percebidos. Registros de caça, atropelamentos e presença de animais domésticos nas áreas de ocorrência dos felinos evidenciam pressões antrópicas relevantes. A análise fecal indicou dieta diversificada, presença de itens antrópicos e achados parasitológicos e ambientais, reforçando a proximidade entre felinos, animais domésticos e humanos. Os resultados destacam a importância das RPPNs como refúgios para felinos na Caatinga alagoana, bem como a necessidade de estratégias integradas de conservação que considerem aspectos ecológicos, sanitários e socioambientais. Este estudo contribui para o avanço do conhecimento sobre felinos no semiárido brasileiro e oferece subsídios para o manejo e a mitigação de conflitos, visando à coexistência sustentável entre humanos e grandes e médios carnívoros na Caatinga.