O papel de perturbações antrópicas crônicas no processo de arbustização da caatinga
Floresta Tropical Sazonalmente Seca; Resiliência; Rebrota; Degradação; Estrutura da vegetação.
Perturbações antrópicas são o principal vetor de degradação ambiental, pois alteram a estrutura, a composição e o funcionamento dos ecossistemas, comprometendo sua regeneração e resiliência. Em florestas tropicais sazonalmente secas, como a Caatinga, essas perturbações estão associadas a mudanças nas assembleias vegetais, especialmente à substituição de árvores de tronco único por arbustos multiramificados, processo denominado arbustização antrópica. Esse rearranjo pode modificar a dinâmica ecológica e favorecer a consolidação de estados alternativos estáveis. Contudo, as evidências desse processo ainda são escassas e restritas a áreas menos representativas da Caatinga, situadas sobre a bacia sedimentar. Este estudo teve como objetivo investigar o papel das perturbações antrópicas na arbustização da comunidade plantas lenhosas em áreas de Caatinga sobre o embasamento cristalino, caracterizadas por solos relativamente mais férteis. O estudo foi conduzido no Parque Nacional do Catimbau, em 20 parcelas de 50 m x 20 m, distribuídas ao longo de gradientes de perturbação antrópica. A caracterização da perturbação baseou-se em índices relacionados ao pastejo de animais, extração de lenha e uso de recursos florestais. Foram amostrados 1833 indivíduos, distribuídos em 30 espécies e sete famílias, com predominância de Fabaceae e Euphorbiaceae. Cenostigma pyramidale, Jatropha mollissima e mimosa ophthalmocentra foram as espécies mais abundantes. Metade das espécies apresentou plasticidade estrutural, com ocorrência de indivíduos uni- e multiperfilhados. Não foram detectadas relações significativas entre os índices de perturbação antrópica e a diversidade de plantas ou a proporção de indivíduos multiperfilhados. Em contraste, o pastejo de animais apresentou positiva com a altura média da vegetação, possivelmente devido ao consumo seletivo por herbívoros, que consomem preferencialmente plântulas e indivíduos jovens, favorecendo a permanência de adultos. A comunidade de plantas ao longo dos gradientes parece estar associada a um subconjunto empobrecido da flora da Caatinga, dominado por espécies tolerantes, multiramificadas e com alta capacidade de rebrota. Esses resultados indicam uma estabilidade estrutural aparente associada a um histórico prolongado e intenso de uso antrópico em áreas de Caatinga sobre embasamento cristalino, ressaltando a necessidade de investigar suas consequências para o funcionamento do ecossistema e se essa condição reflete apenas tolerância estrutural ou a consolidação de um estado degradado de difícil reversão.